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7,5 milhões de brasileiros comprometem renda com apostas online; SUS lança teleatendimento para viciados

Levantamento aponta que 41% dos apostadores abrem mão de itens essenciais para jogar; nova regulamentação em vigor em 2026 busca frear publicidade agressiva e proteger o consumidor brasileiro

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7,5 milhões de brasileiros comprometem renda com apostas online; SUS lança teleatendimento para viciados

Cerca de 7,5 milhões de brasileiros comprometeram sua renda com apostas online, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) divulgado em março de 2026.

O dado integra um cenário de alerta crescente sobre os impactos financeiros e psicológicos das bets no país e fez o Ministério da Saúde anunciar um serviço de teleatendimento gratuito via Sistema Único de Saúde (SUS) voltado a jogadores com transtorno do jogo.

O levantamento revela que 29% dos apostadores já tiveram o nome negativado em decorrência das apostas, e 41% relataram ter aberto mão de itens essenciais — como alimentação e contas básicas — para continuar jogando.

O pano de fundo é o crescimento acelerado do acesso digital no Brasil: segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 85% da população brasileira — o equivalente a 157 milhões de pessoas — tem acesso à internet, e 19% desse total admite ter realizado apostas online.

Quando o jogo vira transtorno

O psiquiatra Cláudio Costa, professor de pós-graduação na área, explica que a medicina dispõe de critérios objetivos para distinguir o comportamento recreativo do transtorno clínico.

“O distúrbio é caracterizado por um padrão persistente de perda de controle sobre as apostas e pela continuidade do comportamento apesar das consequências negativas. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria (APA), o diagnóstico de transtorno do jogo exige a presença de pelo menos quatro sinais ao longo de um período de 12 meses, associados a sofrimento clinicamente significativo ou prejuízos na vida pessoal, social ou profissional. Entre os principais critérios estão a necessidade de apostar quantias cada vez maiores para alcançar o nível de excitação desejado, irritabilidade ou inquietação ao tentar reduzir ou parar de jogar e tentativas repetidas, porém malsucedidas, de controlar o comportamento”, afirmou Costa.

A gravidade do quadro é classificada conforme o número de critérios presentes: leve, quando há quatro ou cinco; moderada, com seis ou sete; e grave, quando oito ou nove critérios são identificados.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, descreve o transtorno do jogo como um padrão persistente ou recorrente de comportamento marcado por três elementos centrais: controle prejudicado sobre o ato de jogar, prioridade crescente dada ao jogo em detrimento de outras atividades da vida cotidiana e continuidade ou intensificação do comportamento mesmo diante de consequências negativas.

Costa também alerta para os efeitos sobre a saúde mental.

“A ansiedade costuma estar relacionada ao aumento de dívidas, à percepção de que o comportamento está fora de controle e ao medo de que outras pessoas descubram o problema. A depressão também pode surgir, marcada por sentimentos de culpa por ter desenvolvido o vício, perda de esperança de melhora e forte auto-recriminação. Já a impulsividade tende a aumentar à medida que o comportamento se intensifica, tornando o controle cada vez mais difícil e levando o jogador a apostar por mais tempo e com valores maiores, muitas vezes assumindo riscos financeiros elevados. Mesmo diante desses impactos, muitas pessoas demoram a buscar ajuda, seja por vergonha ou por dificuldade em reconhecer que o problema existe”, completou.

SUS abre teleatendimento para apostadores com vício

Para responder ao quadro, o Ministério da Saúde anunciou, no início de março de 2026, um serviço de teleatendimento em saúde mental via SUS destinado a pessoas com transtorno do jogo. Com investimento de R$ 2,5 milhões por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), a iniciativa prevê o atendimento inicial de 600 pacientes por mês.

No ano passado, o SUS registrou 6.157 atendimentos presenciais relacionados a jogos. O novo serviço é voltado a brasileiros com 18 anos ou mais e também às redes de apoio — como familiares que sofrem os impactos indiretos do vício. O acesso será feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, disponível 24 horas por dia, em ambiente em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Regulamentação de apostas apostas online no Brasil em 2026

No campo jurídico, o Brasil vive um processo de consolidação regulatória do setor. A Lei 14.790/2023, conhecida como Lei das Bets, legalizou as apostas esportivas de quota fixa e estabeleceu exigências como a obrigatoriedade de sede e administração em território nacional e uma taxação de 12% sobre o Gross Gaming Revenue (GGR) — a receita bruta do jogo —, além do pagamento de outorgas que chegam a R$ 30 milhões.

Segundo o advogado e professor de Direito Henrique Lanza Neto, a regulamentação se intensificou em 2026, com foco na proteção do consumidor e na restrição de publicidade.

“Projetos de lei no Congresso — como o PL 219/2026 e o PL 3563/2024 — propõem proibir incentivos agressivos, restringir anúncios e exigir exclusão compulsória de jogadores patológicos, alinhando o país a padrões internacionais de jogo responsável, com aumento da tributação para até 18%. A consolidação da regulamentação em 2026 pode representar um marco importante, porque traz mais transparência, segurança jurídica e controle para um setor que antes operava com muitas lacunas”, avaliou Lanza Neto.

O advogado também pondera os efeitos sobre a estrutura do mercado.

“As exigências tendem a profissionalizar o setor e afastar operadores informais ou menos estruturados. Por outro lado, esse movimento eleva a barreira de entrada, o que pode concentrar o setor em empresas com maior capacidade financeira. No geral, esse novo cenário beneficia o consumidor, que passa a ter mais proteção, e o Estado, com aumento de arrecadação e fiscalização mais eficiente”, concluiu.

Atualmente, existem 185 casas de apostas autorizadas a operar no Brasil.

Foto de capa: Banco de Imagens

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Escrito por
Dimas Vilas Boas

Dimas Vilas Boas é jornalista e editor do Diário de São José. Atua na cobertura de temas ligados à cidade, com foco em jornalismo local, análise e contexto sobre os fatos que impactam o cotidiano de São José dos Campos e região.

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