Uma greve dos trabalhadores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) provocou a paralisação total da Linha 13-Jade e operação parcial das Linhas 11-Coral e 12-Safira nesta terça-feira (4), afetando mais de 1 milhão de passageiros que dependem diariamente dos três ramais na Grande São Paulo. A paralisação foi deflagrada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil (STEFZCB) em protesto à concessão das três linhas para a empresa privada Trivia Trens. As linhas afetadas incluem o Expresso Aeroporto, que conecta a capital ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.
A adesão à greve superou as expectativas: dos 126 maquinistas escalados para o turno da manhã nas três linhas, apenas três compareceram. Para manter algum nível de operação, a CPTM escalou 21 supervisores para a condução das composições — 18 na Linha 11 e outros seis na Linha 12. Mesmo assim, o efetivo operacional nos três ramais ficou em 67% no horário de pico, abaixo do mínimo de 80% determinado pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT) na véspera. O descumprimento da decisão judicial sujeita o sindicato a multa de R$ 400 mil por dia.
Caos nas plataformas e relatos de passageiros
O impacto foi imediato nas estações. Jonas dos Santos Rosa Nunes chegou à Estação Brás às 4h15 com destino a Itaquaquecetuba, servida pela Linha 12-Safira. “Já comuniquei meu chefe, passei as filmagens [da estação] para ele. Se não liberar, vou voltar para minha casa”, relatou ao UOL por volta das 8h30.
O eletricista Jurandir Alves, 54 anos, saiu de Estudantes às 6h30 em direção ao Brás e precisou usar o serviço de ônibus emergencial do Paese para chegar à Estação Itaquera e, de lá, pegar a Linha 3 do Metrô. “A fila do Paese estava enorme, os ônibus estavam muito cheios. Eu passei mais de uma hora para conseguir um”, contou. A cozinheira Vanessa Santos, 42, embarcou no Paese em Suzano às 7h40 em situação semelhante. “Veio lotado desde lá. O pessoal nem conseguiu entrar em Guaianases. Quando parou lá, estava cheio”, relatou.
Uma passageira que não quis se identificar disse estar a caminho de um exame de endoscopia no Jardim Romano e só descobriu o problema na estação. “Estou bem preocupada com o horário, não sei se vou conseguir chegar”, afirmou. Antônio Severino, 50 anos, foi de Guarulhos até o Tatuapé para um exame médico. “Até chegar aqui não estava sabendo da greve, é um transtorno”, reclamou.
O que o sindicato reivindica
De acordo com o sindicato da categoria, o movimento busca garantias formais para a manutenção dos empregos e dos direitos trabalhistas dos ferroviários durante a transferência da operação para a Trivia Trens. O sindicato reivindica ainda a aprovação de projetos de lei de interesse da categoria na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), entre eles o que prevê a absorção dos funcionários por órgãos da administração pública estadual após processos de concessão.
Em nota, o sindicato afirmou que “não houve garantia formal de manutenção dos empregos” na reunião realizada na segunda-feira (3) no Palácio dos Bandeirantes e que “permanece aberto ao diálogo”, esperando que o governo apresente “com urgência, uma proposta concreta que garanta a preservação dos postos de trabalho”.
Governo e CPTM rebateram
O presidente da CPTM, Michael Cerqueira, confirmou o descumprimento da determinação judicial e defendeu a concessão.
“A gente espera que a categoria entenda que a população não pode ser prejudicada. O governo sempre teve o diálogo aberto. A CPTM sempre conversou com o sindicato e buscou — da maneira possível — atender as reivindicações”, disse Cerqueira em entrevista à TV Globo.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi mais incisivo. Em publicação no X (antigo Twitter), chamou a greve de “baderna” e afirmou que a paralisação “não vai intimidar o governo”.
“Uma concessão é feita para melhorar os serviços, eliminar problemas de via permanente, trazer trens novos, garantir estações mais acessíveis, eliminar falhas na via aérea de alimentação e nas subestações, estender as linhas até Bonsucesso ou até César de Souza e dar mais confiança ao sistema”, disse Freitas.
O governador acusou o sindicato de “instrumentalização política para prejudicar o passageiro e o cidadão.”
Em nota oficial, o Governo de São Paulo reiterou os compromissos apresentados na reunião de segunda: preservação dos postos de trabalho, análise dos projetos de lei da categoria, discussão sobre a incorporação da Estrada de Ferro Campos do Jordão pela CPTM e a inclusão dos trabalhadores no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe).
O contexto da concessão para a Trivia Trens
A greve desta terça tem um pano de fundo turbulento. O processo de privatização das linhas da CPTM teve início na gestão do ex-governador João Doria (então no PSDB). Antes do processo, a CPTM era responsável por sete linhas de trem. Hoje, a companhia opera apenas a Linha 10-Turquesa e, temporariamente, as três linhas em greve.
A Trivia Trens assumiu a operação dos ramais no fim de julho, mas três dias depois registrou um incêndio em uma composição na altura da Rua Bresser, no centro de São Paulo, no dia 23 de julho, que provocou o desligamento de subestações de energia. O episódio foi um dos fatores que levaram a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) a suspender temporariamente a operação da concessionária. A Trivia retornou à fase pré-operacional do contrato, e a CPTM voltou a ser responsável pelos ramais, enquanto a empresa apenas acompanha a operação.
Como estão as linhas nesta terça-feira
Linha 11-Coral: operação parcial entre Palmeiras-Barra Funda e Guaianases. 15 trens em circulação, ante os 31 normais. Demais estações atendidas por 58 ônibus do Paese entre Estudantes e Corinthians-Itaquera.
Linha 12-Safira: operação parcial entre Brás e Engenheiro Goulart. Apenas quatro trens, ante os 24 normais. Demais trechos cobertos por 60 ônibus do Paese entre São Miguel Paulista e Calmon Viana.
Linha 13-Jade: totalmente paralisada, incluindo o Expresso Aeroporto. Atendimento feito por 10 ônibus do Paese entre Aeroporto-Guarulhos e Engenheiro Goulart.
Ao todo, 128 ônibus do Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência (Paese) foram mobilizados.
O Metrô antecipou a abertura das estações das Linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 15-Prata para as 4h e reforçou a oferta de trens nesses ramais. A Linha 3-Vermelha, que atende parte da zona leste e faz integração com os ramais afetados, recebeu composições adicionais. As estações Corinthians-Itaquera, Tatuapé, Brás e Palmeiras-Barra Funda tiveram reforço de efetivo para orientar passageiros.
As Linhas 4-Amarela, 5-Lilás, 7-Rubi, 8-Diamante, 9-Esmeralda e 10-Turquesa operam normalmente.
A Prefeitura de São Paulo suspendeu o rodízio municipal de veículos nesta terça. Automóveis com placas de final 3 e 4 podem circular sem restrições.
A Polícia Militar reforçou o policiamento preventivo no entorno das estações ferroviárias e terminais, com intensificação do policiamento de trânsito nas regiões impactadas. As ações são monitoradas em tempo real pelo Centro Integrado de Operações Coordenadas (CIOC).
Com informações de UOL.
Foto de capa: Divulgação
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