Na última semana, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu quase 1.500 canetas emagrecedoras ilegais dentro de um ônibus na Rodovia Presidente Dutra, em Caçapava. A carga, avaliada em R$ 185 mil e comprada no Paraguai, incluía tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro — e anabolizantes. Um dia antes, outra apreensão na mesma rodovia, mas em Pindamonhangaba. Em junho, uma mulher foi presa por armazenar unidades contrabandeadas em São José dos Campos. São apenas alguns dos flagrantes que aparecem. O que circula sem ser interceptado, ninguém sabe.
Os números nacionais dão a dimensão do problema. Segundo dados da Polícia Federal, as apreensões de canetas emagrecedoras saltaram de nove ocorrências em 2024 para 335 em 2025. Nos cinco primeiros meses de 2026, já são 758 — mais que o dobro do ano anterior inteiro. Entre 2024 e meados de 2026, cerca de 175 mil unidades foram apreendidas em todo o país.
A Anvisa, por sua vez, registrou 257 notificações de efeitos adversos relacionados a esses medicamentos em 2023, 449 em 2024 e 1.122 em 2025 — incluindo desfechos graves e óbitos, embora sem confirmação direta de causa. A agência também identificou a circulação de retatrutida, substância que sequer foi lançada oficialmente ou registrada por qualquer agência reguladora do mundo.
É nesse cenário que a nutricionista Ana Clara Custódio, especialista em emagrecimento e composição corporal e com atuação em São José dos Campos, alerta para o que a urgência de emagrecer esconde: riscos sanitários, danos metabólicos e uma conta que o corpo cobra mais adiante.
“O principal problema é o risco sanitário. A gente não sabe como essas medicações foram conservadas, transportadas, refrigeradas. Se não tiver aquela refrigeração específica, a gente não sabe o que pode acontecer”, disse Ana Clara em entrevista ao Diário de São José. “Simplesmente olhar pra caneta, pro rótulo, não é uma garantia de que você sabe o que está ali dentro.”
Não é para qualquer pessoa
O primeiro equívoco, segundo a nutricionista, é tratar as canetas como um produto de prateleira para quem quer perder peso. Não são. Os análogos de GLP-1 — classe que inclui a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro) — nasceram como tratamento para diabetes tipo 2. O uso no emagrecimento veio depois, a partir de estudos clínicos que demonstraram benefícios em pacientes com obesidade e resistência à insulina.
“Para quem é essa medicação? Para uma pessoa que já teve uma resistência muito grande no processo de emagrecimento, mesmo depois de intervenções como dieta e exercício físico. Pessoas com resistência à insulina, risco aumentado de diabetes, excesso de gordura visceral, pessoas cuja obesidade apresenta um risco muito alto para a saúde”, explicou Ana Clara. “Mas ainda assim, mesmo que elas tenham indicação, o uso da medicação não substitui os outros cuidados.”
E aqui está o ponto que a nutricionista faz questão de marcar com clareza: a caneta não emagrece. O que emagrece é a restrição calórica que ela induz. “O GLP-1 é um hormônio que aumenta a saciedade. Essas medicações sinalizam a saciedade mesmo a pessoa comendo pouco e lentificam o esvaziamento gástrico. A comida passa mais tempo no estômago. Com isso, a pessoa fica satisfeita por mais tempo e, por essa restrição calórica, ela emagrece. Não pela medicação em si, mas pelo cenário hormonal que ela cria”, detalhou.
O problema da automedicação, segundo Ana Clara, é que sem acompanhamento profissional ninguém controla o que de fato está sendo perdido — se gordura ou massa muscular.
“Muitas pessoas que estão se automedicando não acompanham como está a melhora da composição corporal. Isso pode fazer com que a pessoa tenha uma piora metabólica muito significativa, em vez de melhorar o metabolismo, que é a principal intenção do medicamento”, alertou. “E muitas delas acabam caindo no reganho de peso e até piorando os problemas de saúde.”
A caneta não é o vilão. O uso sem critério é
Ana Clara faz questão de não se colocar contra as canetas. Pelo contrário. “Meu ponto aqui não é ser contrária a essas canetas, porque elas vieram realmente para revolucionar o emagrecimento. Quem não entendeu isso ainda está muito atrasado”, afirmou. “Mas as pessoas não podem achar que substitui o trabalho difícil que precisa ser feito.”
O trabalho difícil a que ela se refere é o pacote completo: dieta adequada, treino de força, exercício aeróbico, sono de qualidade, hidratação. Sem isso, o desmame da medicação quase sempre termina em reganho. “A chance da pessoa reganhar o peso perdido no desmame é muito grande se, junto com a medicação, ela não implementou todas essas mudanças que, apesar de difíceis, são inegociáveis”, disse.
A nutricionista propõe que o medicamento seja encarado não como atalho, mas como catalisador. “É como um trampolim para os bons hábitos. A pessoa começa a ver resultados, fica mais animada e, a partir daí, implementa a rotina de exercícios, melhora a alimentação. Esse é o uso correto.”
Mentalidade: o fator que não vem na bula
Se a entrevista com Ana Clara Custódio tem um eixo central, é este: a mudança começa na cabeça, não na caneta.
“O que precisa mudar é a nossa mentalidade limitada de fazer dieta só pra perder x quilos, só porque a gente quer ficar bem pro verão, pro Ano Novo. A gente precisa começar a pensar em uma mudança para a vida”, disse.
A nutricionista fala do assunto com propriedade técnica, mas também com vivência pessoal. Ela própria passou por um processo de emagrecimento que exigiu disciplina construída do zero. “Eu era uma pessoa bem indisciplinada. Ia pra academia praticamente chorando, já quase chorei na porta da academia de tanto que eu não queria ir. Me lembro muito bem desse momento”, contou. “E hoje, o meu normal é fazer essas coisas. O diferente é não fazer.”
A chave, segundo Ana Clara, foi trocar a motivação estética por motivações maiores. “Eu queria ser uma mulher produtiva, queria ter energia, queria ter saúde. Isso se tornou mais importante pra mim do que o emagrecimento em si. E foi assim que eu entendi que não era um processo de curto prazo.”
A neurociência, ela explica, valida o caminho. “O nosso cérebro funciona com base na recompensa. Quando ele começa a perceber que, a partir dessas mudanças nas suas escolhas diárias, você está se sentindo melhor, com mais energia, dormindo melhor, ele vai se adaptando. Essas mudanças se tornam a sua nova realidade. O que antes era muito difícil se torna praticamente automático.”
Saúde como objeto de desejo
Ana Clara observa com atenção um fenômeno que vem ganhando corpo nos últimos anos, impulsionado sobretudo pelas redes sociais: a saúde como status. “As pessoas desejavam carros, bolsas, luxo. Hoje a gente quer correr 21 quilômetros, 42. O luxo hoje é você ter uma vida funcional, conseguir fazer coisas grandiosas como uma maratona”, disse.
A tendência se traduz em números concretos. São José dos Campos acompanha a onda nacional de expansão de academias e grupos de corrida. Redes têm aberto unidades em ritmo acelerado pela cidade. A geração Z puxa o movimento: bebe menos, marca encontros em academias, busca qualidade de vida como valor e não como obrigação.
“Se tornou um objeto de desejo. E eu acho que é uma influência muito positiva que a gente vem tendo das redes sociais, de pessoas que mostram o estilo de vida saudável e acabaram impactando a vida de outras”, avaliou.
As transformações que ela vê no consultório
No dia a dia da prática clínica, as histórias que mais marcam Ana Clara são as que transbordam a balança. “Tem pacientes que emagreceram e conseguiram engravidar. Muitas não se reconheciam mais olhando no espelho, e isso se refletia no relacionamento com o cônjuge, na produtividade do trabalho”, contou.
“Aí chega aqui uma mulher transformada, um homem transformado, com muito mais energia, um corpo aos 40 melhor do que aos 20. E é realmente motivo de muita satisfação pra mim ver tantas mudanças. Reverter um pré-diabetes, controlar um diabetes, melhorar o perfil do colesterol e, com isso, prevenir muitas coisas que poderiam ser piores no longo prazo”, disse.
Para quem ainda olha o autocuidado como gasto ou vaidade, a nutricionista deixa uma reflexão simples: “A gente pode quebrar a meta grande em várias pequenininhas e caminhar um passo por vez. Com o tempo, as coisas mudam. O corpo se adapta, a mentalidade muda, o paladar muda. O que antes era muito difícil se torna a sua nova realidade.”
Foto de capa: Divulgação
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