Paulo Humaitá tinha o sonho formatado com precisão de engenheiro: entrar numa multinacional, crescer por dentro e conseguir uma transferência internacional. Em 2014, trabalhando na Novozymes — hoje Novonesis, líder global em biotecnologia —, a proposta chegou. Carolina do Norte, Estados Unidos. Casa, carro, encargos pagos, salário em dólar.
“Cara, era a oportunidade da minha carreira. Era o meu sonho, o que eu tinha ali no meu plano de vida”, contou Humaitá em entrevista ao Diário de São José.
Ele não foi.
“Fui meditar, fui orar, cresci na igreja, fui buscar orientação. Fiquei umas duas semanas enrolando. Aí liguei pro meu chefe americano e falei: é o meu sonho, mas eu vou declinar essa proposta. Vou ficar no Brasil. Por algum motivo acho que tenho que ficar no Brasil”, relatou.
A decisão levou semanas para assentar — e anos para fazer sentido completo. A empresa o transferiu de Curitiba para São Paulo. Ali, conheceu a vizinha com quem se casaria, mergulhou no ecossistema de startups que começava a ganhar corpo no país e, no tempo livre, passou a ajudar empreendedores em estágio inicial. Restaurantes de refugiados para geração de renda. Um serviço de helicópteros sob demanda para executivos. Projetos que outros chamariam de malucos.
“Eu fui ajudando e falei: cara, eu acho que meu propósito está aqui. Não é à toa que eu vim pra São Paulo”, disse.
O porão da igreja e as 20 startups que faliram
Em 2016, Humaitá largou a carreira corporativa. Conseguiu uma sala emprestada no porão da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo, reuniu 25 pessoas e fez o pitch de uma ideia que ainda não tinha forma definida: montar uma aceleradora de startups com propósito, valores e método.
“Falei: cara, eu quero montar uma aceleradora que ajude empreendedores de verdade. Mas como fazer isso? Não tenho a menor ideia. Por isso chamei vocês”, contou.
Do encontro saíram os primeiros cofundadores, os primeiros investidores e um conselho que, em parte, permanece até hoje. Humaitá viajou ao Vale do Silício, bateu na porta da UC Berkeley e da Blackstars, passou um tempo estudando o modelo americano de aceleração e trouxe a metodologia para o Brasil.
Não funcionou. As primeiras 20 startups aceleradas pela BlueFields faliram rapidamente. “A gente acelerou a falência delas em um ano. A gente estava experimentando como fazer”, admitiu, sem rodeio. “Esse modelo não funciona aqui no Brasil.”
Paulo Humaitá foi de Nairóbi a São José dos Campos
O ponto de virada veio de onde poucos empreendedores brasileiros procurariam: Nairóbi, no Quênia. Humaitá descobriu uma aceleradora fundada por dois estudantes de MBA de Harvard — um americano e um queniano — que operava na África Oriental com uma metodologia adaptada a mercados emergentes.
“Eu e o Roberto, meu sócio, fomos pra Nairóbi, passamos umas semanas lá. E falamos: cara, empreender aqui em Nairóbi é muito mais parecido com empreender no Brasil do que o Vale do Silício. A educação, a cultura, o ambiente de negócios, a disponibilidade de capital — tudo parecido”, contou.
Fecharam parceria, trouxeram o modelo, traduziram, adaptaram e relançaram a BlueFields oficialmente em 2017. “Até 2016, 2017, foi sofrido. Meu dinheiro acabou. Morei de favor com a minha avó. Não teve nada de glamouroso no processo”, disse.
O que veio depois, no entanto, justifica o percurso. De 2017 para cá, a BlueFields realizou mais de 20 programas de aceleração. Mais de 300 startups passaram pela metodologia, e 60% continuam ativas — quase três vezes a média de mercado, segundo dados da própria aceleradora. A empresa gerou mais de R$ 250 milhões em faturamento para negócios acelerados e foi premiada entre as melhores aceleradoras do Brasil pela Associação Brasileira de Startups (ABStartups) e pela francesa Leaders League.
A BlueFields opera hoje com duas unidades de negócio: aceleração de empreendedores em estágio inicial e inovação corporativa para grandes empresas com faturamento acima de R$ 300 milhões por ano.
Quando a inovação vira resultado dentro da empresa
A segunda frente nasceu de uma tese de mestrado. Em 2019, Humaitá cursou o mestrado em novos negócios no Mackenzie e decidiu testar a hipótese de que o mesmo processo usado para acelerar startups poderia ser aplicado dentro de corporações. As demandas já chegavam.
“Empresa que quer inovar tem ali uma pessoa com esse mandato. Seja um diretor de inovação, seja um diretor de RH, um diretor de marketing. Mas o cara sabe jogar futebol, não sabe jogar críquete. É um outro jogo”, explicou.
No dia em que apresentou a dissertação, a BlueFields assinou o primeiro contrato de inovação corporativa.
O caso mais emblemático é o da construtora Tenda, empresa listada na B3. A BlueFields opera ali o programa de intraempreendedorismo com 7 mil funcionários que podem submeter ideias dentro de um tema anual. A aceleradora faz a curadoria, os diretores selecionam as cinco a dez melhores, e os colaboradores são transformados em times internos que funcionam como startups. Depois de meses de desenvolvimento, os projetos são apresentados em um Demo Day interno.
“Um projeto aplicou um robô comprador e gerou R$ 1,5 milhão de economia em compras. Outro aplicou inteligência artificial na área de vendas — R$ 15 milhões de resultado. Tudo a partir de ideias de colaboradores”, relatou Humaitá. “Às vezes é um assistente, às vezes é um coordenador. O cara é um baita empreendedor, mas não sabe disso.”
O portfólio corporativo inclui ainda o Bradesco, onde a BlueFields atua com inovação dentro do RH, e o Grupo Jacto — fabricante de máquinas agrícolas que exporta para mais de 100 países e cuja história começa com um refugiado japonês que chegou ao Brasil com o equivalente a cem dólares no bolso, nos anos 1940, na cidade de Pompeia, interior de São Paulo.
No caso do Grupo Jacto, o modelo vai além da empresa. Por meio da fundação da família, o programa de intraempreendedorismo envolve também outras empresas da região de Marília — como Marilan, Dori, Cacau Show e Grêmio Recreativo — além de estagiários da universidade local, a FAEC. “Setenta por cento dos alunos são contratados. Não tem melhor forma de conhecer a pessoa do que durante um projeto”, contou.
O conselho que salvou a empresa
Humaitá faz questão de falar de um elemento que, segundo ele, é o mais subestimado do ecossistema de startups brasileiras: o conselho consultivo. O da BlueFields reúne nomes como o ex-vice-presidente global da PepsiCo, um ex-VP da Natura, o executivo que transformou as Havaianas na marca global que são hoje enquanto atuava na Alpargatas — em São José dos Campos —, e um VP do Google.
“Se não fosse o conselho, a BlueFields já teria falido. Se eu tivesse tomado as decisões que eu achei que deveriam ter sido tomadas, a empresa não estaria mais aqui. Teria ido mais rápido, mas teria fracassado”, reconheceu.
“O pessoal fala: conselho é mais pra empresa grande, capital aberto, não faz sentido pra startup. Cara, eu acredito demais. Talvez você vá um pouco mais devagar, mas é muito mais assertivo”, completou.
IA e o novo modelo de aceleração
No ano passado, a BlueFields aplicou sobre si mesma o processo que vende a clientes: um projeto de estratégia e futuros que identificou 14 possibilidades de reinventar o modelo de aceleração. A empresa se capitalizou e migrou do formato tradicional — turmas fechadas, mesma trilha para todos — para o que chama de fluxo contínuo.
O coração do novo modelo é uma inteligência artificial que hiperpersonaliza a trilha de cada empreendedor conforme o estágio em que se encontra. “Antes era um currículo para 20 startups, mesma trilha. Hoje, se a gente tiver 100 startups, são 100 trilhas de aceleração”, explicou Humaitá.
O matching com mentores, que antes era manual, agora é automatizado. A IA analisa o perfil do empreendedor, identifica o estágio de maturidade do negócio, cruza com os 70 mentores da rede e sugere o especialista mais adequado para aquele momento. O empreendedor agenda a mentoria direto pela plataforma.
“Você coloca a IA onde tem que colocar, mas mantém humanizado onde tem que manter. Só plataforma tecnológica não vai funcionar”, disse. Por isso, o modelo combina tecnologia com comunidade: encontros semanais de microlearning, mentorias em grupo, sessões entre pares no mesmo estágio e encontros presenciais.
O produto funciona por assinatura mensal — R$ 349 na fase promocional de lançamento — e inclui mais de R$ 50 mil em créditos de ferramentas como AWS, Google Workspace e Stripe.
São José dos Campos: a escolha e o sonho
Humaitá não nasceu em São José dos Campos e, até se mudar, não conhecia a cidade. A decisão veio durante a pandemia, quando ele e a esposa — taubateana — moravam em Buenos Aires para que ele aprendesse espanhol e conhecesse o ecossistema de startups argentino. Com a gravidez do primeiro filho, o casal descartou a volta a São Paulo.
“Qual é uma cidade que não é tão longe de São Paulo, dá pra ir, que tem boa qualidade de vida? E que seja uma cidade vocacionada pro que a gente faz: inovação, tecnologia. Foi a dedo assim. São José dos Campos”, contou.
A mudança de Buenos Aires direto para São José foi prática: qualidade de vida, proximidade com a capital e um ecossistema de inovação que o CEO considera único no Brasil. Mas é o próximo passo que ele descreve com mais entusiasmo.
“Cara, São José é a região no Brasil que pode fazer muita diferença nisso. É meu sonho ter um hub nosso aqui. Seja em parceria com uma empresa, seja standalone”, afirmou. “São José tem o PIT, tem as universidades, tem a vocação. Tem muito potencial pra gente acelerar bastante coisa aqui.”
O modelo que ele quer replicar é o do Grupo Jacto em Marília: empresas da região enviando times, universidades locais fornecendo estagiários, projetos de inovação gerando emprego e contratação na ponta. “Lá em Marília, 70% dos alunos envolvidos são contratados. Dá pra fazer isso aqui”, reforçou.
Aos que acompanham o ecossistema de startups e inovação de São José dos Campos, a fala de Humaitá soa menos como promessa e mais como declaração de intenção. A BlueFields já opera com sede em São Paulo, mas o CEO mora, trabalha e cria o filho em São José. A próxima laje, segundo ele, pode muito bem ser aqui.
Foto de capa: Divulgação
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