O Brasil registrou 826 mil casos confirmados de hepatites virais entre 2000 e 2024, segundo dados do Ministério da Saúde divulgados durante a campanha Julho Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a doença. As infecções, causadas pelos vírus das hepatites A, B, C, D e E, atingem o fígado e podem evoluir de forma silenciosa, especialmente nos casos das hepatites B e C, sem apresentar sintomas por anos.
Quando não diagnosticadas e tratadas a tempo, as hepatites virais podem evoluir para complicações graves, como cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado. O alerta ganha força neste mês, apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento das últimas décadas.
Segundo a infectologista Tassiana Galvão, que atua na Santa Casa de São Roque — unidade da Prefeitura do município gerenciada pelo Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” (CEJAM), organização que também administra serviços de saúde em São José dos Campos —, a ausência de sintomas não deve ser interpretada como ausência de risco.
“A hepatite é perigosa justamente porque, muitas vezes, não dói, não dá febre, não deixa a pessoa amarela e não manda aviso. Ela pode comprometer o fígado por anos em silêncio. Esperar sintoma aparecer é uma estratégia ruim e, em alguns casos, pode significar descobrir a doença tarde demais”, afirma Galvão.
Testagem como ferramenta de diagnóstico precoce
De acordo com a infectologista, a testagem é uma das principais ferramentas para interromper o ciclo de diagnóstico tardio das hepatites virais. Muitas pessoas só descobrem a infecção ao doar sangue, durante exames de rotina, no pré-natal ou quando já existe alteração hepática.
“O teste é simples, mas pode mudar completamente o destino de uma pessoa. Na hepatite C, o diagnóstico pode abrir caminho para a cura. Na hepatite B, permite acompanhamento e controle antes que o fígado sofra danos irreversíveis”, explica Galvão.
Mitos e verdades sobre as hepatites virais
A especialista esclarece pontos que costumam gerar confusão entre a população. Segundo ela, é mito que a pessoa “saberia” se estivesse com hepatite: muitos casos de hepatite B e C não apresentam sintomas por anos, e a ausência de sinais não significa que o vírus não esteja causando danos ao fígado. Também é mito que a doença sempre deixa pele e olhos amarelos — a icterícia pode ocorrer, mas não é regra, e sintomas como cansaço, náuseas, dor abdominal, urina escura e perda de apetite podem passar despercebidos ou nem aparecer.
Já é verdade que a hepatite C tem tratamento altamente eficaz e cura na maioria dos casos.
“Hoje temos tratamento, possibilidade de cura e temos como evitar que essa infecção evolua para cirrose ou câncer de fígado. O gargalo é encontrar quem ainda não foi diagnosticado”, destaca a infectologista.
Por outro lado, é mito que a hepatite B seja inofensiva quando a pessoa não sente nada: a doença pode se tornar crônica e causar lesões progressivas no fígado, mesmo sem sintomas, evoluindo em alguns casos para cirrose e câncer hepático.
“Sentir-se bem não é garantia de que o fígado está protegido. A hepatite B pode ser silenciosa e ainda assim grave. Por isso, vacina, teste e acompanhamento médico são fundamentais”, explica Galvão.
Vacinação, transmissão e grupos de risco
Existem vacinas contra as hepatites A e B, mas não há vacina disponível contra a hepatite C — nesse caso, a prevenção depende de testagem, tratamento e redução de situações de risco. A vacinação contra a hepatite B também reduz o risco de hepatite D, já que esta última depende da presença do vírus da hepatite B para ocorrer.
Objetos que entram em contato com sangue contaminado, como alicates de unha, lâminas de barbear e materiais de tatuagem e piercing, podem transmitir hepatites virais se forem compartilhados ou não esterilizados corretamente — cuidado que vale para manicures, barbearias, estúdios de tatuagem e procedimentos estéticos invasivos. A hepatite B também pode ser transmitida por via sexual, o que reforça a importância do uso de preservativo. Já a hepatite A é transmitida principalmente pela via fecal-oral, muitas vezes por água ou alimentos contaminados e higiene inadequada das mãos.
A infectologista também destaca que associar a doença apenas a determinados grupos é um mito que prejudica a saúde pública.
“Quando a sociedade coloca a hepatite dentro de uma caixinha moral, perde-se a chance de diagnosticar muita gente. O vírus não se importa com rótulos”, afirma.
Outro ponto reforçado por Galvão é que exames de rotina do fígado, como TGO e TGP, não substituem testes específicos para hepatites virais, já que a pessoa pode ter a infecção mesmo com resultados momentaneamente normais. Pessoas que receberam transfusão de sangue antes da implementação de triagens mais rigorosas e gestantes durante o pré-natal também devem considerar a testagem, segundo a especialista.
Testagem e vacinação contra hepatites virais estão disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A recomendação da infectologista é que pessoas que nunca testaram para hepatites B e C, que não sabem se estão vacinadas contra hepatite B ou que passaram por situação de risco procurem uma unidade de saúde.
“A hepatite pode ser silenciosa, mas o diagnóstico não precisa ser tardio. O Julho Amarelo existe para lembrar que informação, vacina e testagem salvam vidas. Quem nunca testou deve procurar orientação. Esse cuidado pode evitar uma complicação grave no futuro”, finaliza Galvão.
Foto de capa: Ilustração/Banco de Imagens
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