Fernando Ferreira é psicólogo, especializado em psicologia formativa, e passou os últimos anos estudando os efeitos da ansiedade e do estresse em um público específico: empreendedores e empresários. Gente que toca negócio, assina folha de pagamento, resolve crise antes do café e geralmente é a última da fila quando o assunto é cuidar de si. É desse lugar — entre a clínica e o mundo corporativo — que ele observa a entrada em vigor da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que desde 26 de maio obriga todas as empresas com regime CLT a incluir os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
“Eu vejo dois ganhos”, disse Ferreira em entrevista ao Diário de São José. “O primeiro tem relação com o bem-estar do trabalhador. São várias práticas que serão implementadas, inclusive por psicólogos que estão se preparando para atender as empresas. Não é uma necessidade nova, mas é uma obrigatoriedade a partir de agora.”
O segundo ganho, segundo ele, é econômico — e deveria interessar a qualquer gestor que acompanhe o próprio fluxo de caixa.
“Quando a gente tem um bom ambiente, esse bom ambiente favorece que a pessoa se desenvolva, cresça enquanto pessoa e profissional. Isso baixa o turnover, a troca de funcionários muito frequente. E demissões e recontratações geram custos muito elevados”, afirmou. “Além disso, quando o ser humano está bem consigo, organizado mentalmente e emocionalmente, e o ambiente de trabalho ajuda nesse desenvolvimento, ele tende a produzir mais.”
A fala parece senso comum, mas os números mostram que o óbvio ainda não virou prática. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou 472.328 afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2024 — aumento de 68% em relação ao ano anterior e o maior patamar em pelo menos uma década. Em 2025, o número subiu para 546.254, alta de 15,6%. Só os transtornos de ansiedade responderam por 141.414 licenças em 2024. As mulheres representam 63,4% dos afastamentos por saúde mental.
É nesse cenário que a Portaria MTE nº 1.419/2024 consolidou a inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Na prática, fatores como sobrecarga de trabalho, pressão excessiva, assédio moral e ambientes organizacionais tóxicos passam a ser tratados com o mesmo rigor que riscos físicos, químicos e biológicos. Empresas que não se adequarem podem ser autuadas e multadas.
As empresas não estão prontas para a NR-1
Perguntado se o mercado brasileiro está preparado para absorver a nova exigência, Ferreira foi direto. “Eu acredito que as empresas não estão prontas. Esse começo vai ser bem árduo para os psicólogos e outros profissionais que estarão nessa linha de frente”, disse.
O desafio, segundo ele, vai além da implementação burocrática da NR-1. Envolve lidar com dinâmicas emocionais que se retroalimentam dentro de equipes inteiras. “Num grupo, numa empresa, você vai ter várias pessoas ansiosas, estressadas, e às vezes o estresse e a ansiedade de um retroalimenta o outro. Inclusive gestores ansiosos e estressados vão trazer esse estresse para quem está abaixo, os vendedores, entre outros profissionais”, explicou.
Ainda assim, Ferreira enxerga a obrigatoriedade com otimismo moderado. “Vai precisar de profissionais capacitados, mas eu vejo com bons olhos e acredito que gerará bons frutos a médio e longo prazo”, avaliou.
O Brasil, vale lembrar, lidera o ranking global de transtornos de ansiedade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Cerca de 9,3% da população brasileira — aproximadamente 19,8 milhões de pessoas — convive com o diagnóstico. A média mundial é de 3,6%. O país também ocupa a quinta posição mundial em casos de depressão.
Onde a NR-1 não chega
Se a norma representa um avanço para trabalhadores com carteira assinada, há uma pergunta que permanece sem resposta institucional: e os outros? O Brasil tem uma parcela significativa de trabalhadores informais, microempreendedores individuais, profissionais autônomos, motoristas de aplicativo, entregadores — gente que enfrenta os mesmos boletos, as mesmas pressões e, não raro, condições ainda mais adversas, mas que não está sob o guarda-chuva da NR-1.
Para responder a essa questão, Ferreira recorreu à teoria da hierarquia das necessidades de Abraham Maslow, um dos pilares da psicologia humanista. “Maslow dizia que existe uma hierarquia com cinco níveis de necessidades. O primeiro são as necessidades básicas: sono, fome, alimentação, abrigo. Se eu tenho essas necessidades atendidas, vou para o segundo nível, que são as necessidades de segurança: emprego, renda, moradia”, explicou.
O problema, segundo o psicólogo, é que a maior parte da população brasileira opera nas camadas mais baixas dessa pirâmide — e quem está ali tende a ignorar as necessidades que ficam acima, como autoestima, realização pessoal e autocuidado.
“Esse trabalhador tende a não olhar para as necessidades acima porque está buscando atender necessidades mais prioritárias, mais urgentes”, disse. “Eu atendo pessoas que trabalham nesses contextos e pergunto: quando foi o último check-up? Faz dois, três anos que a pessoa não vai num clínico geral. Porque ela está buscando as necessidades mais urgentes.”
A consequência, Ferreira alerta, é previsível. “Isso vai virando uma bola de neve. O fato de deixar de lado as outras necessidades faz com que a pessoa fique girando nessa espiral. Vai trazer problemas futuros de saúde, problemas psicológicos, emocionais, até mesmo nas relações, no casamento, no trabalho”, afirmou.
A conta sempre chega
Se há uma mensagem central na fala de Fernando Ferreira, é esta: autocuidado não é gasto, é prevenção. E a conta de não se cuidar chega — com juros.
“Se eu vivo a minha vida apenas nas demandas circunstanciais que eu tenho que atender agora, nas urgências, a tendência é que em algum momento a conta chegue. Eu posso ter um problema de saúde por não cuidar de mim, posso ter um problema no casamento, posso perder um emprego ou perder um cliente numa situação estressante em que a pessoa tenha um comportamento de raiva e traga prejuízos”, disse.
A sugestão dele é simples na teoria e difícil na prática: mudar a lente temporal. “A primeira coisa é parar de olhar só o hoje e começar a ter uma perspectiva de médio e longo prazo. Se a pessoa fizer um exercício mental de exagerar um cenário — onde eu só atendo demandas emergentes e não cuido de mim — e projetar: o que pode acontecer em cinco anos? E em dez? E em 15? Aí todo mundo já consegue imaginar”, explicou.
Ferreira usa com seus pacientes uma imagem que traduz bem o exercício. “Eu brinco com as pessoas: em algum momento, eu paro e começo a me olhar como um drone, de cima, entendendo a minha vida de forma mais abrangente.”
E há um efeito colateral positivo que costuma surpreender quem experimenta a mudança.
“Quando a gente tira a lupa do curto prazo e começa a olhar as necessidades no longo prazo, a gente tem um ganho também no curto prazo. A pessoa que faz esse autocuidado tende a estar mais organizada mentalmente, emocionalmente, em termos de espaço, horário e dinheiro. Então as demandas no curto prazo também são afetadas”, afirmou.
Fernando Ferreira é psicólogo com especialização em psicologia formativa, abordagem que estuda de forma contínua e que orientou sua prática clínica desde o início da carreira. Seu primeiro campo de atuação foi o atendimento a pessoas com demandas de ansiedade e estresse de diversas origens — trabalhadores, empregadores, aposentados.
Com o tempo, passou a atender um volume crescente de empreendedores e empresários, o que o levou a desenvolver um subnicho de especialização: os efeitos da ansiedade e do estresse especificamente nesse público. Seus estudos e sua prática clínica concentram-se em demandas como aceleração, pressão, raiva, tristeza e angústia — sintomas que, como ele faz questão de ressaltar, formam um contínuo e raramente aparecem isolados.
Foto de capa: Gerada por Inteligência Artificial
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