Saúde

Hantavírus: infectologista explica riscos, sintomas e prevenção após surto em navio de cruzeiro

Especialista reforça que doença é rara e que risco para a população geral é baixo; Ministério da Saúde afirma que surto no MV Hondius não representa ameaça ao Brasil

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Infectologista explica o que é o hantavírus, quais os sintomas e como se prevenir após surto no navio MV Hondius. OMS e Ministério da Saúde dizem que risco é baixo

A confirmação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de que a cepa de hantavírus identificada em passageiros do navio de cruzeiro MV Hondius é a variante andina — a única com potencial de transmissão entre humanos — gerou repercussão e dúvidas sobre os riscos da doença para a população.

Apesar do alerta, autoridades de saúde e especialistas reforçam que não há motivo para pânico: o hantavírus é considerado raro, tem transmissão geralmente associada ao contato com urina, fezes e saliva de roedores infectados e, até o momento, o risco para a população em geral segue baixo, segundo a OMS.

O MV Hondius, embarcação com bandeira holandesa, saiu de Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril de 2026. Passageiros começaram a apresentar sintomas durante a travessia. Até 11 de maio, a OMS registrava sete casos confirmados, dois casos prováveis aguardando resultado laboratorial e três mortes.

Passageiros infectados estão hospitalizados em ao menos sete países, incluindo África do Sul, Holanda, Alemanha, Espanha, França e Suíça. A embarcação atracou em Tenerife, nas Ilhas Canárias, no dia 10 de maio, quando os passageiros foram desembarcados e voos de repatriação foram organizados para seis países europeus e o Canadá.

De acordo com o Dr. Evaldo Stanislau, médico infectologista e professor na Universidade São Judas/Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil, a principal mensagem neste momento é de cautela sem alarmismo.

“O hantavírus é uma doença já conhecida, mas bastante incomum e geralmente associada a ambientes rurais, onde há maior contato com roedores. A excepcionalidade desse caso é justamente o contexto de um ambiente confinado, como um navio, e a suspeita de uma transmissão entre pessoas, algo considerado raro”, explica.

A OMS informou que a cepa identificada no surto é a variante Andes, encontrada principalmente na Argentina e no Chile. Trata-se da única variante conhecida com registros de transmissão entre humanos, embora isso ocorra apenas em situações muito específicas, envolvendo contato próximo e prolongado.

Sintomas do hantavírus e quando procurar atendimento

Os sintomas iniciais podem se parecer com os de diversas infecções virais comuns, o que exige atenção ao contexto epidemiológico do paciente.

“Na maioria das vezes, a doença começa com febre, mal-estar, dores no corpo e sintomas inespecíficos. Em uma parcela menor dos casos, pode evoluir para quadros graves, com falta de ar importante, insuficiência respiratória e necessidade de internação intensiva”, afirma o infectologista.

De acordo com a OMS, os sintomas costumam aparecer entre uma e oito semanas após a exposição ao vírus. O especialista destaca que fatores como contato frequente com áreas rurais, celeiros, depósitos fechados ou ambientes com presença de roedores ajudam os médicos a levantar a suspeita da doença.

No Brasil, a hantavirose se manifesta principalmente na forma da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), doença que pode comprometer pulmões e coração. A taxa de letalidade da síndrome pulmonar é de cerca de 40%, segundo dados internacionais, o que reforça a importância do diagnóstico precoce, ainda que a ocorrência seja rara.

Risco de pandemia é descartado por especialistas

Para o professor Stanislau, este é justamente o ponto que mais tem gerado desinformação nas redes sociais.

“As pessoas naturalmente ficaram mais assustadas após a pandemia de Covid-19, mas é importante reforçar que estamos falando de uma doença rara e de transmissão muito limitada. O próprio posicionamento da OMS é de que o risco global segue baixo”, afirma.

A entidade internacional reforçou que a transmissão entre humanos associada à variante Andes é incomum e exige contato muito próximo entre as pessoas infectadas. Stanislau também lembra que o hantavírus não é uma doença nova.

“Eu atuo na medicina há quase 40 anos e nunca vi pessoalmente um caso de hantavirose. Muitos colegas infectologistas também não. Isso mostra o quanto ela é incomum na prática clínica”, comenta.

O Ministério da Saúde reforçou que o surto no MV Hondius não representa risco para o Brasil. Em nota publicada em 8 de maio e atualizada em 11 de maio, a pasta informou que não há registro da circulação do genótipo Andes no território nacional.

Os casos brasileiros de hantavirose envolvem outros genótipos do vírus e não apresentam transmissão entre pessoas. Até 27 de abril de 2026, o Brasil registrava sete casos e um óbito por hantavírus no ano, em Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina — nenhum deles relacionado ao surto internacional. Em 2025, foram 35 casos no país.

Seis cuidados de prevenção ao hantavírus

As principais medidas de prevenção envolvem evitar contato com roedores e manter cuidados básicos de saúde e higiene.

Entre as recomendações do especialista estão: evitar contato com fezes, urina e saliva de roedores; manter ambientes limpos e ventilados; redobrar os cuidados ao limpar locais fechados por muito tempo; utilizar proteção ao manusear áreas possivelmente contaminadas; manter vacinas em dia e atenção à saúde antes de viagens; e evitar viajar com sintomas infecciosos.

“Em qualquer ambiente aglomerado e fechado, há maior risco de transmissão de doenças infecciosas. Mas isso vale muito mais para gripe, Covid-19 e outros vírus respiratórios do que para o hantavírus”, ressalta o especialista.

Vale lembrar que os ratos urbanos — como ratazana, camundongo e rato de telhado — não são reservatórios dos tipos de hantavírus que ocorrem no Brasil. Os principais fatores de risco incluem atividades agrícolas, domésticas ou de lazer associadas à exposição a roedores silvestres, como limpeza de galpões, colheita, trilhas e pesca.

Até o momento, autoridades internacionais seguem investigando o episódio registrado no cruzeiro e monitorando possíveis contatos dos passageiros infectados. A OMS mantém a avaliação de que o evento é localizado e sem evidências de risco elevado de disseminação global.

Foto de capa: Divulgação

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Escrito por
Dimas Vilas Boas

Dimas Vilas Boas é jornalista e editor do Diário de São José. Atua na cobertura de temas ligados à cidade, com foco em jornalismo local, análise e contexto sobre os fatos que impactam o cotidiano de São José dos Campos e região.

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