A deputada estadual Leticia Aguiar, vice-líder do Partido Liberal (PL) na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), denunciou publicamente o que descreve como um padrão sistemático de desvalorização da mulher na política.
Segundo a parlamentar, o problema foi identificado em conversas com deputadas, vereadoras, prefeitas e mulheres em posições de liderança em diferentes municípios do estado de São Paulo, incluindo cidades da região do Vale do Paraíba, onde Leticia concentra parte de sua atuação.
“A todo tempo tentam desqualificar a mulher na política. Machismo, violência intelectual, perseguição e misoginia ainda fazem parte da realidade de muitas mulheres que decidiram ocupar esse espaço”, afirmou a deputada.
Padrão de silenciamento
De acordo com Leticia, as situações relatadas por lideranças femininas incluem a redução da mulher a vínculos pessoais, a invisibilização da atuação parlamentar, a desconsideração de resultados concretos e a construção de narrativas enviesadas sobre sua trajetória.
A deputada estende o diagnóstico para além da política. Segundo ela, mulheres que atuam no comércio, na indústria, no mercado de trabalho em geral e nas forças de segurança — como policiais, militares e guardas municipais — também relatam situações semelhantes de desqualificação profissional.
Sobre sua própria trajetória, Leticia foi direta: “Ocupo esse espaço na política por apoio da população, por confiarem em mim e na minha capacidade em representá-los. Estou aqui por permissão de Deus e exerço minha função com honra e ética.”
A parlamentar também fez uma advertência a quem, segundo ela, persegue mulheres na vida pública: “Tem muito canalha que vai pagar o preço por perseguir mulher.”
Violência contra a mulher no debate
Leticia Aguiar incluiu no conjunto de sua manifestação a questão da violência doméstica e do feminicídio. Segundo a deputada, os altos índices de agressões, assédio e mortes de mulheres no Brasil exigem seriedade no enfrentamento e não podem ser minimizados ou tratados de forma superficial.
A parlamentar defende que o combate à violência deve passar pela proteção efetiva, pela aplicação da lei e pelo fortalecimento da família.
Para a deputada, o fortalecimento da presença feminina na política passa pelo reconhecimento da capacidade e dos resultados — não por cotas ou ações afirmativas desvinculadas do mérito. Segundo Leticia, o debate sobre igualdade deve estar ligado à liberdade de atuação e à meritocracia.
Números contextualizam o debate
Os dados nacionais e locais ajudam a dimensionar o cenário descrito pela deputada. No plano federal, a bancada feminina elegeu 91 deputadas nas eleições de 2022 — o maior número da história, mas ainda assim apenas 17,7% das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. No Senado Federal, as mulheres respondem por 19,8% das vagas. Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), a legislatura 2023-2026 também bateu recorde histórico: 25 das 94 cadeiras são ocupadas por deputadas — 26,6% do total, ante 19 na legislatura anterior.
O avanço existe, mas a representatividade feminina ainda está longe de refletir a composição da população: as mulheres são 51,5% dos brasileiros, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e respondem por 52,4% do eleitorado cadastrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O descompasso coloca o Brasil na 139ª posição em ranking internacional de representação feminina nos parlamentos, entre 184 países avaliados, segundo o próprio TSE.
Em São José dos Campos, o retrato é ainda mais concentrado. A Câmara Municipal eleita em outubro de 2024 tem apenas duas mulheres entre os 21 vereadores — o equivalente a 9,5% das cadeiras, menos da metade da média nacional.
Para as eleições estaduais e federais de outubro de 2026, a cidade tende a ter, até o momento, apenas três pré-candidatas a deputada federal e quatro a deputada estadual com base em São José.
O cenário reflete, em parte, um mecanismo estrutural questionado por analistas eleitorais: a lei obriga os partidos a preencherem no mínimo 30% de suas candidaturas com mulheres, mas a regra não garante investimento real em suas campanhas.
A prática de incluir mulheres na lista apenas para cumprir a cota — sem estrutura, financiamento proporcional ou tempo de antena equivalente ao dos candidatos homens — é conhecida no jargão eleitoral como “candidatura laranja”.
Segundo o Observatório Nacional da Mulher na Política, vinculado à Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, a cota mínima de 30% de candidaturas femininas foi descumprida em mais de 700 municípios nas eleições de 2024. Nos ciclos eleitorais entre 2018 e 2024, a média nacional de candidaturas de mulheres foi de 34% — mas apenas 17% das candidatas se elegeram, segundo o TSE.
Foto de capa: Divulgação
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