Saúde

Câncer pode ser evitado em até 40% dos casos, mas prevenção ainda esbarra em hábitos e acesso à informação

Brasil soma mais de 700 mil novos diagnósticos por ano; especialistas apontam que parte expressiva dos casos está ligada a fatores modificáveis

305
Brasil enfrenta mais de 700 mil casos de câncer por ano; prevenção e diagnóstico precoce estão no centro do debate no Dia Mundial do Câncer

O Brasil registra cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2023–2025. O número mantém a doença entre os maiores desafios de saúde pública do país, mas um dado menos difundido reposiciona o debate: entre 30% e 50% dos casos poderiam ser evitados com medidas preventivas simples, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A constatação ganha força no Dia Mundial do Câncer, celebrado em 4 de fevereiro, e escancara uma contradição persistente no país. Embora o câncer ainda seja amplamente associado à herança genética ou ao “azar”, boa parte dos tumores está diretamente relacionada a hábitos de vida, exposição ambiental e ausência de políticas eficazes de prevenção e diagnóstico precoce.

“Quando falamos em câncer, muita gente pensa que é sempre genética. Não é. Uma parte importante tem relação direta com fatores modificáveis: tabagismo, álcool, excesso de peso, sedentarismo, alimentação inadequada e exposição solar sem proteção”, afirma a oncologista Dra. Laísa Silva, do Hospital Regional de Assis, unidade da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo gerenciada pelo CEJAM.

Hábitos cotidianos pesam mais do que se imagina

Entre os tipos de câncer mais incidentes no Brasil estão os de pele não melanoma, mama, próstata, cólon e reto, pulmão e estômago, conforme dados do INCA. “Nas mulheres, o câncer de mama segue como o mais comum; nos homens, o de próstata. Mas é importante olhar também para os tumores fortemente associados a hábitos — como pulmão, por exemplo, muito ligado ao tabaco”, explica a médica.

O tabagismo segue como o fator isolado mais prevenível. Mundialmente, está associado a uma parcela expressiva das mortes por câncer e permanece como prioridade nas estratégias de saúde pública.

“Parar de fumar é a medida com maior impacto na redução de risco oncológico. E vale também para quem já fumou: o corpo se beneficia com o tempo”, afirma Dra. Laísa.

O consumo de álcool também é apontado como fator de risco estabelecido para diversos tipos de tumores, incluindo mama, fígado, esôfago e cavidade oral. “É um tema que ainda surpreende: do ponto de vista oncológico, não há consumo totalmente isento de risco. Reduzir já ajuda. E evitar é melhor.”

Excesso de peso, sedentarismo e alimentação baseada em ultraprocessados completam o cenário de risco.

“Não se trata de dieta da moda. É necessário apenas ter uma rotina que inclui comida de verdade, com menos ultraprocessados, movimento regular e sono melhor”, resume a oncologista.

Vacinação e diagnóstico precoce ainda salvam mais do que tecnologia

Além dos hábitos, a vacinação exerce papel central na prevenção de alguns tipos de câncer. Tumores de colo do útero, orofaringe, ânus, pênis, vagina e vulva têm forte associação com o HPV, vírus para o qual existe imunização disponível no SUS. O mesmo ocorre com a hepatite B, principal fator de risco para o câncer de fígado.

Apesar dos avanços da oncologia, como imunoterapia, medicina de precisão e terapias-alvo, especialistas reforçam que o impacto real na sobrevida ainda depende, majoritariamente, do diagnóstico precoce. Identificar o câncer em fases iniciais permite tratamentos menos agressivos, maior chance de cura e melhor qualidade de vida.

Nesse contexto, consultas regulares e exames de rastreamento seguem como ferramentas decisivas, mas ainda subutilizadas no país. A desigualdade de acesso à informação e aos serviços de saúde continua sendo um entrave, especialmente fora dos grandes centros.

No Dia Mundial do Câncer, a mensagem central permanece simples, embora pouco assimilada. “O câncer ainda assusta, mas hoje sabemos que muitos casos podem ser prevenidos e muitos outros podem ser curados quando diagnosticados precocemente. A informação e o cuidado contínuo fazem diferença real na vida das pessoas”, conclui Dra. Laísa.

Foto de capa: Divulgação

Acompanhe o Diário também nas redes! Siga o @diariodesaojose.com.br no Instagram.

O Diário também fala com você! Receba as principais notícias de São José. Entre agora no canal oficial do Diário no Whatsapp e receba notícias em tempo real.

Escrito por
Dimas Vilas Boas

Dimas Vilas Boas é jornalista e editor do Diário de São José. Atua na cobertura de temas ligados à cidade, com foco em jornalismo local, análise e contexto sobre os fatos que impactam o cotidiano de São José dos Campos e região.

Matérias relacionadas

Brasil registra 826 mil casos de hepatites virais desde 2000, segundo Ministério da Saúde

O Brasil registrou 826 mil casos confirmados de hepatites virais entre 2000...

Hantavírus: infectologista explica riscos, sintomas e prevenção após surto em navio de cruzeiro

A confirmação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de que a cepa...

Sedentarismo infantil avança no Brasil e acende alerta para saúde de crianças e adolescentes

O sedentarismo infantil deixou de ser apenas uma preocupação pontual de pais...