Saúde

Brasil dobra consumo de ultraprocessados em 40 anos e acende alerta na saúde pública

Avanço desses produtos na dieta brasileira está associado ao aumento de doenças crônicas e pressiona, a médio e longo prazo, o sistema público de saúde

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Brasil dobra consumo de ultraprocessados em 40 anos e aprofunda crise silenciosa da saúde pública

O consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil mais que dobrou nas últimas quatro décadas. A participação desses produtos na dieta da população saltou de cerca de 10% para aproximadamente 23%, segundo uma coletânea de artigos científicos publicada recentemente na revista The Lancet. O dado evidencia uma mudança profunda no padrão alimentar do país e ajuda a explicar a escalada de doenças crônicas que hoje impactam diretamente a saúde pública.

A série científica aponta que o crescimento dos ultraprocessados não é um fenômeno isolado, mas parte de uma transformação global marcada pela substituição de alimentos in natura e minimamente processados por produtos industrializados, ricos em açúcares, gorduras, sal e aditivos químicos. No Brasil, essa transição ocorreu de forma acelerada a partir dos anos 1980, acompanhando a urbanização, a reorganização do mercado de trabalho e a expansão agressiva da indústria alimentícia.

Os pesquisadores ressaltam que esse padrão alimentar está associado a pior qualidade nutricional da dieta e ao aumento da incidência de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares. Embora os efeitos não sejam imediatos, eles se acumulam ao longo do tempo e tendem a pressionar sistemas públicos de saúde, especialmente em países com grande desigualdade social.

Para o nutricionista Abelardo Lima, professor do curso de Nutrição da Estácio, o cenário brasileiro exige atenção urgente.

“O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, que ascendeu de 10% para 23% da dieta brasileira nas últimas quatro décadas, representa um desafio significativo para a saúde pública no Brasil. Essa tendência se manifesta em um aumento crescente de casos de obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e hipertensão crônica, além de distúrbios do trato digestivo. Tal cenário está intimamente ligado ao consumo elevado de aditivos alimentares, corantes, conservantes, alto teor de sal, açúcares simples adicionados e gorduras saturadas presentes nesses produtos.”

A análise apresentada na Lancet reforça que o problema ultrapassa a esfera individual. O avanço dos ultraprocessados está diretamente relacionado a fatores econômicos, sociais e urbanos, como a busca por praticidade, a ampla disponibilidade desses produtos e estratégias de marketing que favorecem seu consumo cotidiano, inclusive entre crianças e adolescentes.

Ultraprocessados, desigualdade e o impacto estrutural no sistema de saúde

Um dos pontos centrais destacados pelos estudos é que o impacto dos ultraprocessados não se distribui de forma homogênea. Populações de menor renda tendem a consumir mais esses produtos, seja pelo custo aparente, seja pela dificuldade de acesso regular a alimentos frescos. Esse padrão aprofunda desigualdades em saúde e amplia a demanda por atendimento contínuo na rede pública, especialmente para o tratamento de doenças crônicas que exigem acompanhamento ao longo da vida.

Abelardo Lima defende que o enfrentamento do problema passa por mudanças estruturais no padrão alimentar, alinhadas às diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira, documento oficial do Ministério da Saúde.

“Essa abordagem, resumida na expressão ‘desembalar menos e descascar mais’, promove o consumo de alimentos com maior valor nutricional, ricos em nutrientes essenciais e com menor densidade calórica, favorecendo uma melhor distribuição de carboidratos, proteínas e gorduras e, consequentemente, um impacto positivo na saúde.”

O nutricionista reconhece, no entanto, que a praticidade dos ultraprocessados pesa nas escolhas diárias, sobretudo em contextos urbanos marcados por jornadas longas de trabalho e pouco tempo disponível para o preparo das refeições.

“O planejamento alimentar é crucial nesse contexto. A facilidade de acesso aos ultraprocessados contrasta com a necessidade de preparar alimentos frescos. Dedicar tempo ao planejamento semanal das refeições é essencial para garantir escolhas alimentares conscientes e promover a saúde a longo prazo.”

Embora os dados analisados sejam nacionais e internacionais, seus efeitos já são perceptíveis no cotidiano das cidades brasileiras. O crescimento de doenças crônicas se reflete no aumento da demanda por consultas, exames, medicamentos e internações, tornando a alimentação um tema central não apenas para a saúde individual, mas para o planejamento e a sustentabilidade do sistema público de saúde.

Foto de capa: Canva

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Escrito por
Dimas Vilas Boas

Dimas Vilas Boas é jornalista e editor do Diário de São José. Atua na cobertura de temas ligados à cidade, com foco em jornalismo local, análise e contexto sobre os fatos que impactam o cotidiano de São José dos Campos e região.

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