A Câmara Municipal de São José dos Campos pode votar nesta quinta-feira (30) o projeto que concede o Título de Cidadão Joseense ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República nas eleições de 2026. A proposta, de autoria do vereador Anderson Senna (PL), já passou pelas comissões internas da Casa e está apta para apreciação em plenário.
A votação ocorre em um momento de movimentação política intensa no Vale do Paraíba. Há menos de uma semana, São José dos Campos sediou o 1º Encontro da Direita na Região Metropolitana do Vale, evento com mais de 400 pessoas em que o próprio Flávio Bolsonaro participou por chamada de vídeo ao lado de outras lideranças nacionais do campo conservador.
O que é o Título de Cidadão Joseense e como funciona a votação
A honraria é uma das mais simbólicas que uma Câmara Municipal pode conferir: reconhece formalmente uma personalidade como pertencente à comunidade local, independentemente de vínculo de nascimento ou residência. No caso de São José dos Campos, o processo é regulado pelo Regimento Interno da Casa, aprovado em 1983 e atualizado diversas vezes desde então.
Pelo Regimento, a votação de títulos honoríficos exige o voto favorável de dois terços dos membros da Câmara — quórum qualificado, mais alto do que o necessário para a aprovação de projetos de lei ordinários. A votação é simbólica, mas qualquer vereador pode solicitar escrutínio secreto. Cada vereador tem direito a propor até oito homenagens desse tipo por legislatura, e a proposta deve vir acompanhada de currículo do homenageado — exigência que pode ser dispensada quando se tratar de personalidade de notoriedade reconhecida.
O projeto é de autoria de Senna e tem articulação da deputada estadual Leticia Aguiar, que mantém relação próxima com a família Bolsonaro desde, pelo menos, 2015, quando participou da organização de uma vinda de Jair Bolsonaro a São José dos Campos, então na condição de deputado federal.
Para o vereador Senna, a homenagem tem base política e institucional: “O projeto reconhece uma relação política e institucional que já existe, com diálogo e atenção às demandas da nossa região”, afirmou. A deputada Aguiar complementou: “Flávio Bolsonaro tem mantido interlocução com o Vale do Paraíba e representa uma agenda que dialoga com uma parcela significativa da população.”
O peso ideológico da votação e a oposição esperada
A homenagem tem contorno mais marcadamente político-ideológico do que títulos conferidos a personalidades com vínculos objetivos com a cidade — como empresários com atuação local, educadores ou figuras do esporte e da cultura joseense. A ausência de vínculo territorial explícito é o que diferencia esse tipo de honraria e tende a tornar sua votação mais contenciosa.
Na prática, a votação desta quinta deve dividir o plenário. Interlocutores da Câmara que conversaram com o Diário de São José nos últimos dias sustentam que esse tipo de iniciativa vai além do campo simbólico. “Não tem relação com a cidade, tem relação com o calendário eleitoral”, disse uma dessas fontes. O argumento é de que o timing — com Flávio Bolsonaro recém-lançado como pré-candidato à Presidência — transforma a sessão em palanque. Até então, previsível.
A expectativa é de que os quatro vereadores formalmente identificados como oposição (à direita) votem contra: Amélia Naomi e Juliana Fraga, ambas do Partido dos Trabalhadores (PT), e Carlos Abranches (Cidadania) e Fernando Petiti (PSDB). Nos bastidores, porém, interlocutores do próprio campo governista na Câmara não descartam que a pressão do momento político leve a votos contrários também fora desse bloco.
A base do PL e de partidos aliados tem condições de garantir o quórum de dois terços necessário para aprovação.
Em 2024, a Câmara já havia aprovado o mesmo título ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Em ambos os casos, os homenageados não “vieram buscar” suas honrarias.
Quem é Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro, 43 anos, é senador pelo Rio de Janeiro pelo PL desde 2019. Antes disso, foi deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) por 15 anos, eleito repetidamente na mesma base eleitoral do pai — militares, policiais e segmentos conservadores do eleitorado fluminense.
Em março deste ano, durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada em Dallas, nos Estados Unidos, Flávio anunciou formalmente sua pré-candidatura à Presidência. Afirmou que aceitou a missão a pedido de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, e se apresentou como continuidade do projeto político conservador no Brasil.
Em dezembro de 2025, após visitar o pai, Flávio declarou que sua candidatura era “irreversível” e que não haveria possibilidade de recuo. Na mesma ocasião, reuniu-se com dirigentes do União Brasil, PP e PL em Brasília para avançar nas articulações de sua pré-campanha.
No Senado, Flávio assumiu o comando da Comissão de Segurança Pública, posicionando-se no centro de temas como crime organizado, sistema prisional e política de armamento — pautas centrais para o eleitorado bolsonarista em 2026.
Foto de capa: Divulgação
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