A Festa Literomusical de São José dos Campos (FLIM), marcada para esta sexta-feira (19) no Parque Vicentina Aranha, enfrenta sua maior crise desde a criação. A retirada da jornalista Milly Lacombe da programação, por ordem direta do prefeito Anderson Farias (PSD), desencadeou protestos, acusações de censura e uma sequência de cancelamentos que deixou todas as sete mesas literárias da festa desfalcadas.
Marisa Orth se retira
A atriz Marisa Orth foi a mais recente a anunciar que não participará do evento. Em comunicado publicado nas redes sociais, ela lamentou a decisão:
“Em conformidade com a mesa final para a qual fui convidada e aos curadores da FLIM 2025, ‘Eu sou porque nós somos’, comunico que minha participação não acontecerá. Lamento o ocorrido por ser entusiasta da Festa literária e musical e considero este cancelamento uma perda para a Cultura e para a Cidade de São José dos Campos.”
A saída de Marisa, figura nacionalmente reconhecida, ampliou a repercussão e reforçou a percepção de que a FLIM 2025 se transformou em palco de uma disputa política e cultural sem precedentes na cidade.
Origem da crise: veto a Milly Lacombe
O impasse começou quando o prefeito vetou a presença da escritora e jornalista Milly Lacombe, alegando que suas falas sobre o conceito de “família tradicional” em um podcast de julho não seriam compatíveis com o evento. A decisão foi classificada como censura por diversos setores da sociedade.
A curadoria da festa renunciou em bloco, denunciando a tentativa de controle ideológico da programação. Em seguida, autores, artistas e grupos musicais passaram a anunciar desistências sucessivas.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subseção de São José dos Campos, emitiu nota por meio da Comissão de Direitos Humanos classificando a exclusão como grave. O texto afirma que decisões políticas que restringem a pluralidade de vozes “comprometem o caráter democrático de um evento cultural que deveria justamente fomentar a diversidade”.
Segundo a OAB, a liberdade de expressão é cláusula pétrea da Constituição e não pode ser relativizada por conveniências políticas ou pressões momentâneas.
Todas as mesas atingidas
A dimensão da crise é inédita: nenhuma mesa literária permanece intacta. Entre os nomes que cancelaram estão Xico Sá, Cuti, Helena Silvestre, Jéssica Anitelli, Christian Dunker, Naomi Jaffe, Júlio Pimentel Pinto, Micheliny Verunschk e Adriana Ferreira Silva.
Além da área literária, o Grupo Experiência Dylan também desistiu de se apresentar, e a cantora Céu, com show marcado para sábado (21), apagou das redes sociais a divulgação de sua participação. A presença segue incerta.
Apesar do esvaziamento, o prefeito Anderson Farias mantém o discurso de que o evento será realizado. “A FLIM vai acontecer. Essas pessoas que desistiram por vontade própria serão substituídas”, afirmou nesta quarta (17).
A AFAC (Associação para o Fomento da Arte e da Cultura), responsável pela produção, ainda não divulgou quais nomes poderão substituir os cancelados.
Foto de capa: Divulgação









