A partir desta quinta-feira (29), a tarifa do transporte público de São José dos Campos passa a custar R$ 6,50 para pagamentos em dinheiro e cartão de crédito ou débito. O reajuste de 8%, acima da inflação acumulada de 2025, que foi de 4,25%, ocorre em meio a um discurso oficial de transformação estrutural do sistema, com promessas de frota 100% elétrica, ampliação de linhas, integração total dos modais e novos formatos de pagamento.
O aumento foi oficializado por decreto publicado no último dia 19 e passa a valer imediatamente. Para quem utiliza o cartão comum recarregado pelo próprio usuário, o valor segue em R$ 5,25. Estudantes passam a pagar R$ 2,50. Aos domingos, usuários do cartão comum pagam R$ 4,75. No transporte alternativo, a tarifa também sobe para R$ 6,50, enquanto estudantes que utilizam vans pagam R$ 3,25.
Segundo a Prefeitura, usuários que já possuem créditos no Bilhete Único poderão utilizá-los pelo valor antigo por até 30 dias.
A justificativa oficial: dinheiro mais caro para empurrar o usuário ao cartão
Em entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan, o prefeito Anderson Farias (PSD) afirmou que o aumento maior para quem paga em dinheiro não é acidental, mas parte de uma estratégia deliberada.
“Quando a gente fala em tarifa de R$ 6,50, esse valor é para quem paga em dinheiro. A gente quer, sim, cobrar mais caro para que a pessoa vá para o cartão.”
Segundo o prefeito, o pagamento em dinheiro representa hoje menos de 4% das transações do sistema, mas ainda movimenta entre R$ 1,8 milhão e R$ 2 milhões por mês dentro dos ônibus.
“A nossa intenção é diminuir isso cada vez mais, até zerar, para que não haja dinheiro circulando dentro dos ônibus.”
Na prática, a lógica apresentada é simples: quem paga em dinheiro paga mais e não tem direito à integração. Quem utiliza o cartão comum paga menos e pode usar até três ônibus em um intervalo de até 40 minutos, pagando apenas uma passagem.
“Se a pessoa usar dois ônibus pagando em dinheiro, ela vai pagar R$ 13. Se ela tiver o cartão, paga R$ 5,25 e pode usar até três ônibus.”
Sistema deficitário e subsídio público
Durante a entrevista, o prefeito também detalhou os números do sistema. Atualmente, o transporte público arrecada cerca de R$ 21 milhões por mês, enquanto o custo operacional gira entre R$ 29 milhões e R$ 30 milhões. A diferença é coberta por subsídio do município.
“Se esse custo fosse totalmente transferido para a tarifa, o usuário estaria pagando hoje algo em torno de R$ 9.”
A Prefeitura argumenta que, mesmo com o reajuste, São José dos Campos mantém uma tarifa inferior à de cidades de porte semelhante, como Campinas, Ribeirão Preto, Santos e São Bernardo do Campo.
Promessa de virada: frota 100% elétrica até setembro
O reajuste chega acompanhado de uma narrativa de transformação profunda. Em declarações feitas em suas próprias redes sociais, Anderson Farias afirmou que o transporte público da cidade passará por uma mudança estrutural ainda em 2026.
Segundo ele, a frota já começou a ser substituída no final de 2025 e deverá ser 100% elétrica até setembro deste ano, com veículos equipados com ar-condicionado, piso baixo e melhor acessibilidade.
“Muitas pessoas me perguntam se o ônibus elétrico vai atender todas as regiões da cidade. Sim. Todas as regiões.”
A promessa inclui redução de ruído urbano, menor impacto ambiental e custo operacional mais baixo em comparação aos veículos a diesel.
Integração total e fim da passagem dupla
Outro ponto central do discurso é a integração completa do sistema. Hoje, vans operam de forma separada, obrigando o usuário a pagar duas passagens. Segundo o prefeito, isso deixará de existir.
“Hoje o usuário paga duas passagens. A partir deste ano, passará a pagar apenas uma.”
A proposta inclui integração com bicicletas, patinetes, aplicativos de transporte individual e táxis, todos conectados a um único meio de pagamento, o Cartão Mobilidade.
“Todos os sistemas de transporte estarão integrados. Todos eles estarão na palma da mão do cidadão.”
Mais linhas, horários noturnos e ônibus articulados
O plano apresentado prevê ainda a criação de linhas noturnas, ampliação da oferta aos finais de semana e reforço nos horários de pico. A frota total deve crescer para cerca de 400 veículos.
Além disso, São José deve ampliar de cinco para 24 o número de ônibus articulados nas linhas regulares, fora a Linha Verde, atendendo corredores estratégicos como Novo Horizonte, Galo Branco, Santana, Avenida Andrômeda, Urbanova e regiões Norte, Sul e Sudeste.
Linha Verde – Fase 2 e conexão Leste–Sul
No pacote de promessas, a Prefeitura também reafirma a implantação do Anel Leste, conhecido como Linha Verde – Fase 2, ligando o Campo dos Alemães à região leste da cidade, passando pela Rodoviária, Parque Tecnológico, Jardim Diamante, Motorama, Santa Inês, Frei Galvão e Jardim São José.
“Isso representa uma mudança de comportamento. Uma mudança na forma como nos deslocamos pela cidade.”
Entre o agora e o depois
Enquanto o discurso oficial projeta um sistema mais moderno, integrado e sustentável, o impacto imediato para o cidadão é concreto: a tarifa mais cara já começou a valer. A maior parte das mudanças anunciadas ainda depende de prazos, transição operacional e implantação completa até setembro.
Até lá, o transporte público de São José dos Campos passa a viver um período de convivência entre a promessa de uma revolução e o custo maior no presente — um equilíbrio que, na prática, será medido no dia a dia de quem depende do ônibus para trabalhar, estudar e circular pela cidade.
Foto de capa: Divulgação
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