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Eleições 2026: ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão disputa reeleição com meio ambiente e ciência no centro da campanha

Cientista, ex-diretor do Inpe e deputado federal por seis meses na legislatura passada, Ricardo Galvão disputa a reeleição pelo PSB defendendo que evidências científicas orientem as políticas públicas e aponta a proteção das nascentes do Vale do Paraíba como prioridade regional

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Ricardo Galvão quer formar uma bancada da ciência no Congresso e coloca meio ambiente no centro da campanha

O físico Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), é candidato a deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) nas Eleições de 2026 com uma proposta que resume sua trajetória: levar o método científico para dentro do Congresso. Em entrevista ao Diário de São José, Galvão afirmou que sua principal meta, caso reeleito, é formar uma bancada da ciência na Câmara, e defendeu que decisões sobre meio ambiente, segurança pública e economia sejam tomadas a partir de evidências, e não de convicções.

A ciência como eixo da candidatura

A candidatura de Galvão parte de um diagnóstico sobre o funcionamento do Legislativo. Para o candidato, o Congresso decide com frequência sobre temas que exigem conhecimento técnico sem contar com cientistas de carreira em suas fileiras. Há bancadas organizadas em torno de religião, do agronegócio e da educação, observa, mas não uma que reúna a comunidade científica — lacuna que ele considera prejudicial à qualidade das políticas públicas.

Foi essa ausência, segundo Galvão, que pesou na decisão de disputar novamente o cargo. Ele chegou a ponderar que a idade, aos 78 anos, seria motivo para deixar a vida parlamentar, mas afirma ter sido convencido a seguir pela possibilidade de estruturar esse grupo. A meta se apoia em uma leitura recorrente em sua fala: a de que informação não é conhecimento, e que decisões de Estado precisam considerar a cadeia de evidências que sustenta cada conclusão.

Professor de carreira e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Física e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Galvão chegou à Câmara na legislatura atual como suplente da federação PSOL Rede, assumindo a vaga aberta quando o titular, Guilherme Boulos, deixou o mandato para ocupar um cargo no Executivo. A passagem de cerca de seis meses pelo Legislativo, afirma, o convenceu de que a formação acadêmica faz diferença no debate público.

As prioridades para o Vale do Paraíba

No recorte regional, Galvão organiza suas propostas em torno da agenda ambiental, área em que atuou como diretor do órgão federal responsável pelo monitoramento por satélite do território brasileiro.

A proteção dos recursos hídricos aparece no topo da lista. O Vale do Paraíba abriga nascentes de importância estratégica. Para o candidato, falta ao país um mecanismo consolidado de compensação aos proprietários rurais que preservam áreas de nascente — instrumento que ele pretende defender no Congresso como forma de conciliar conservação e atividade econômica.

A gestão de resíduos é o segundo ponto. Galvão sustenta que já existe conhecimento técnico para aproximar o Vale de um cenário de resíduo zero, com processamento integral do lixo, mas que falta normatização regional. Ele chama atenção para dois gargalos: a coleta de recicláveis, que considera insuficiente em São José dos Campos, e o descarte de resíduo hospitalar, para o qual avalia não haver legislação nem estrutura adequadas. O candidato lembra ainda que o lixo do Litoral Norte é transportado para a região de Taubaté e Jambeiro, o que reforça, em sua leitura, a necessidade de uma política supramunicipal.

Na área de energia, Galvão defende a expansão da geração solar, que considera mais viável no Vale do que a eólica, e cita como avanço recente a rejeição de um projeto de termelétrica em Caçapava.

A agricultura sustentável fecha o conjunto de prioridades. O candidato argumenta que é possível ampliar a produção sem novos desmatamentos, aproveitando as extensas áreas de pastagem degradada da região e a tecnologia desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Os ganhos de produtividade da agricultura brasileira nas últimas décadas sustentam o argumento: segundo a Embrapa, entre 1975 e 2017 a produção nacional de grãos cresceu mais de seis vezes, saltando de 38 milhões para 236 milhões de toneladas, enquanto a área plantada apenas dobrou — ou seja, o aumento veio principalmente de eficiência tecnológica, e não da expansão sobre novas terras.

Crime organizado: mais ação do Estado, não mais leis

Ao tratar de segurança pública, Galvão adota posição distinta da que predomina no debate eleitoral. Para ele, o problema central do enfrentamento ao crime organizado não é a insuficiência das leis, mas a falta de ação efetiva do Estado. A legislação atual, avalia, já permitiria punir a maior parte dos crimes; o que falha é a execução.

O candidato, que participou das discussões sobre o projeto de lei das facções criminosas quando esteve na Câmara, é cético quanto à eficácia do simples aumento de penas. Ele cita a experiência dos Estados Unidos, onde morou, para argumentar que estados com pena de morte e estados sem ela não apresentam diferença relevante nos índices de criminalidade. O caminho que considera promissor é outro: atingir o poder econômico das organizações, linha que atribui a operações recentes em São Paulo.

Galvão descreve o crime organizado como um fenômeno de alcance nacional e transfronteiriço, que não se resolve apenas no âmbito estadual. Aponta como prioridades a integração de informações entre as polícias, o aparelhamento das corporações — em especial a Polícia Civil — e o controle mais rígido sobre a entrada de armas e munições no país. Para ilustrar a sofisticação dessas organizações, relata que, quando dirigia o Inpe, grupos ligados ao desmatamento na Amazônia contratavam profissionais de tecnologia para monitorar os dados de detecção do instituto e deslocar sua atuação para áreas ainda não fiscalizadas.

Contas públicas e a crítica às emendas

Na economia, Galvão defende o controle orçamentário como necessidade inadiável. Reconhece a importância das políticas sociais e diz se posicionar ao lado do governo, mas pondera que iniciativas recentes elevaram o gasto público a um patamar que o país não tem condições de sustentar sem consequências. Um endividamento elevado, argumenta, encarece o crédito e afasta o investimento externo do qual a economia depende para crescer.

Para dimensionar o quadro, a dívida bruta do governo geral atingiu 82,5% do PIB em julho de 2026, o equivalente a R$ 10,9 trilhões, segundo o Banco Central — o nível mais alto desde a pandemia. Em 2025, as contas públicas registraram déficit nominal de R$ 1,062 trilhão, e a taxa Selic está em 14% ao ano desde 5 de agosto. Diante desse cenário, Galvão avalia que uma reformulação orçamentária séria será inevitável em 2027, independentemente de quem vença a eleição presidencial.

É desse diagnóstico que decorre sua posição mais incisiva: a crítica ao volume das emendas parlamentares. Para o candidato, mesmo emendas sem qualquer irregularidade produzem um efeito nocivo, ao fragmentar o orçamento e retirar do governo central a capacidade de estabelecer prioridades nacionais. A lógica, afirma, acaba induzindo o parlamentar a pulverizar recursos em função de retorno eleitoral. Galvão não defende o fim do instrumento, mas considera o patamar atual desproporcional e prejudicial a qualquer gestão federal.

Posições sobre temas nacionais

No bate-bola realizado pelo Diário de São José, Galvão fez questão de tratar as respostas como condicionais, recusando o formato de sim ou não para temas que considera complexos.

Sobre o fim da escala 6×1, declarou-se favorável, com ressalva quanto ao ritmo de implementação. Galvão rgumenta que o debate tende a focar nas grandes empresas, quando a maior parte da economia é formada por pequenos negócios — de padarias a propriedades de gado leiteiro, onde o trabalho não se interrompe nos fins de semana. Para esses casos, defende uma transição escalonada no tempo, que permita a adaptação sem inviabilizar o pequeno empregador. A PEC 221/19, que reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais sem perda salarial, foi aprovada pela Câmara em dois turnos em 27 de maio deste ano, por 461 votos a 19 no segundo turno, e está no Senado.

Sobre a regulamentação da inteligência artificial e das redes sociais, o candidato separou os dois temas. No caso da inteligência artificial, defende que o Estado promova o desenvolvimento nacional da tecnologia com algum grau de controle, para que o país não fique dependente das poucas empresas globais que dominam o setor — risco que associa à concentração de dados. Cita como iniciativa nesse sentido o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, elaborado entre 2024 e 2025. Quanto às redes sociais, considera necessário um controle governamental que não elimine iniciativas, com o argumento de que as plataformas estimulam respostas rápidas e superficiais e são usadas para disseminar o que classifica como negacionismo científico.

Sobre a regulamentação dos jogos de azar, foi enfático ao considerá-la absolutamente necessária. Aponta as apostas esportivas como um vício que tem empobrecido famílias e distorcido o esporte brasileiro, e defende um modelo de controle estatal com metas e avaliação contínua, em vez de proibição pura e simples.

Quem é Ricardo Galvão

Ricardo Galvão é físico, professor e pesquisador, com passagem pela direção do Inpe e pela presidência da Sociedade Brasileira de Física e do CNPq. Sua entrada na política remonta à fundação do PSDB, quando foi convidado por lideranças ligadas ao ideal parlamentarista, entre elas o então correligionário Emanuel Fernandes e Mário Covas; afastou-se em seguida e só retornaria à atividade partidária anos depois, pela Rede Sustentabilidade, a convite de Marina Silva. Na legislatura atual, assumiu uma vaga na Câmara dos Deputados como suplente e agora disputa a reeleição pelo PSB.

Em suas considerações finais, o candidato dirigiu ao eleitor um apelo que sintetiza sua plataforma. Citando um alerta recente da organização internacional que reúne cientistas de diversos países sobre o esgotamento de recursos naturais, a perda de biodiversidade e o aquecimento global, afirmou que, qualquer que seja a preferência partidária, não considera justificável votar em candidatos que neguem a ciência.

As eleições acontecem em 4 de outubro de 2026. O Diário de São José entrevista os candidatos a deputado federal e estadual que têm relação com São José dos Campos para apresentar ao eleitor suas trajetórias, propostas e posições sobre temas municipais, regionais e nacionais.

Foto de capa: Lucas Lacaz Ruiz/A3

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Escrito por
Dimas Vilas Boas

Dimas Vilas Boas é jornalista e editor do Diário de São José. Atua na cobertura de temas ligados à cidade, com foco em jornalismo local, análise e contexto sobre os fatos que impactam o cotidiano de São José dos Campos e região.

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