O endividamento das famílias brasileiras interrompeu a tendência de crescimento e permaneceu estável em 81,6% em junho de 2026, mesmo patamar de maio. A inadimplência também ficou parada, em 29,9%. Mas a estabilidade não se distribuiu de forma igual: entre as famílias com renda de até três salários mínimos, o endividamento subiu para 84,7% e a inadimplência avançou para 38,3%, enquanto os indicadores recuaram nas faixas de renda mais altas. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada nesta terça-feira (14).
Segundo a CNC, a estabilidade do indicador geral decorreu do equilíbrio entre movimentos opostos. As famílias com renda entre três e cinco salários mínimos registraram avanço de 0,6 ponto percentual no endividamento, enquanto as que ganham entre cinco e dez salários recuaram 1,3 ponto percentual.
Endividamento das famílias varia conforme a faixa de renda
O contraste entre as faixas aparece com clareza nos números. No topo da escala, entre quem ganha mais de dez salários mínimos, o endividamento ficou em 71,4% e a inadimplência, em 15,4%. Na base, entre quem recebe até três salários, os índices chegam a 84,7% e 38,3%, respectivamente — uma diferença de mais de 20 pontos percentuais na inadimplência entre os dois grupos.
A faixa de três a cinco salários mínimos registrou endividamento de 83,7% e inadimplência de 28,4%. A de cinco a dez salários, 78,3% e 22,6%.
Na inadimplência, a dinâmica foi semelhante à do endividamento: o grupo com maior aumento no endividamento também teve o maior avanço nas contas em atraso (0,4 ponto percentual), e o que mais reduziu o uso do crédito teve a maior queda nos atrasos (0,9 ponto percentual).
No indicador de famílias que declararam não ter condições de quitar as dívidas em atraso, o grupo com renda de até três salários mínimos registrou a única retração.
Comprometimento da renda e prazos
O percentual de famílias que se declararam muito endividadas continuou a avançar em junho, chegando a 17,2%. As que se consideram pouco endividadas tiveram alta maior, alcançando 34,2% — movimento que a CNC classifica como uma composição mais favorável do endividamento.
A própria entidade faz uma ressalva metodológica sobre esse dado: a percepção de endividamento captada pela pesquisa tem caráter subjetivo e reflete a avaliação individual de cada família sobre seu grau de comprometimento financeiro. Assim, o indicador não configura, necessariamente, situação de superendividamento, sendo influenciado por fatores culturais e pela relação de cada pessoa com o crédito.
O percentual de famílias que relataram não ter condições de quitar as dívidas em atraso teve leve redução, para 12,2%.
O tempo médio de atraso caiu pelo segundo mês consecutivo, para 64,8 dias. Além disso, 48,9% das famílias reportaram inadimplência superior a 90 dias, o menor nível desde o início do ano. Segundo a CNC, o resultado pode refletir, entre outros fatores, a evolução recente da renda média captada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) e o maior controle inflacionário.
O comprometimento médio da renda com dívidas manteve-se em 29,3%. A maior parte das famílias (55,8%) destina entre 11% e 50% dos rendimentos às dívidas, enquanto 18,7% comprometem mais da metade da renda. O percentual de famílias com dívidas por prazo superior a um ano permaneceu em 33,3%.
Cartão de crédito lidera as dívidas
Entre as famílias endividadas, o cartão de crédito segue como principal modalidade, presente em 84,7% dos casos em junho. Em seguida aparecem os carnês (16,1%), o crédito pessoal (13,2%), o financiamento de casa (9,9%) e o financiamento de carro (9%).
A série histórica mostra deslocamento na composição das dívidas em 12 meses: o crédito pessoal passou de 10,5% para 13,2%, e o consignado subiu de 4,8% para 7%. Os carnês recuaram de 17% para 16,1%.
Comparação com 2025 e projeções
Apesar da estabilização mensal, os dois indicadores principais seguem acima do patamar de um ano atrás. Em junho de 2025, o endividamento era de 78,4% e a inadimplência, de 29,5%.
A CNC associa parte da melhora recente ao Desenrola 2.0, programa de renegociação de débitos lançado em maio deste ano. O economista-chefe da entidade, Fabio Bentes, pondera que os resultados menos adversos coincidem com os primeiros 60 dias de vigência do programa, mas ressalta que os efeitos práticos e robustos sobre os indicadores só devem ser sentidos de forma mais expressiva nos próximos meses.
Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, o cenário sinaliza possível melhora no médio prazo.
“A estabilização da inadimplência e a melhora dos prazos de pagamento em junho dão um respiro ao consumidor”, afirma Tadros.
Segundo ele, a consolidação depende de outros fatores: “é essencial que a continuação dos efeitos do Desenrola caminhe lado a lado com a redução progressiva da taxa Selic pelo Copom. Sem o afrouxamento contínuo dos juros, o esforço das famílias para limpar o nome esbarra no encarecimento do crédito, travando a retomada do comércio”.
As projeções da própria CNC, no entanto, apontam elevação do endividamento nos próximos meses, acompanhada de ligeiro crescimento das contas em atraso.
Foto de capa: Divulgação
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