O Carnaval de 2026 está acontecendo, majoritariamente, longe da rua. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Hibou, em parceria com a Score, revela que 73,2% dos brasileiros pretendem passar o feriado em casa. Apenas 7,3% planejam ir a bloquinhos e só 4,6% pretendem viajar para a praia. O levantamento ouviu 1.714 pessoas em todo o país e aponta uma mudança consistente no modo como a data vem sendo vivida.
O dado desmonta um dos mitos culturais mais repetidos do país. O Carnaval, historicamente tratado como sinônimo de catarse coletiva e ocupação massiva do espaço público, passa a ser reinterpretado como um intervalo de descanso. Em cidades como São José dos Campos, onde a relação com a folia sempre foi mais discreta do que em capitais carnavalescas, esse movimento não surpreende. Ele apenas ganha forma estatística.
Medo, cansaço e perrengue afastam o folião da rua
Entre os principais fatores que empurram o brasileiro para dentro de casa está a sensação de insegurança. Segundo a pesquisa, 57,8% admitem que o medo nas ruas é o que mais pesa na decisão de não sair. O receio é acompanhado por problemas práticos que se repetem ano após ano, como preços abusivos e infraestrutura precária. Para 81,2% dos entrevistados, a dificuldade de encontrar banheiros é o maior “perrengue” do Carnaval, seguida pela falta de segurança e pelo excesso de gente em espaços pequenos.
Mesmo entre quem ainda pretende sair, o clima é de alerta, não de entrega irrestrita à festa. O Carnaval deixa de ser espontâneo e passa a exigir planejamento, tolerância ao desconforto e disposição física, atributos cada vez mais raros em uma rotina urbana marcada por estresse e sobrecarga mental.
“O brasileiro está usando o feriado para recuperar o fôlego mental. E com mais da metade das pessoas considerando a data como um descanso para a mente, a indústria do entretenimento doméstico e do delivery ganha um apelo gigantesco, enquanto a folia de rua luta para manter seu apelo diante de uma população exausta”, analisa Ligia Mello, CSO da Hibou.
Streaming, sono e silêncio: a nova lógica do feriado
Dentro de casa, o Carnaval assume outra narrativa. O streaming ocupa o lugar do bloco, com a Netflix liderando a preferência, seguida por Amazon Prime e YouTube. Quase metade dos entrevistados pretende maratonar filmes e séries durante o feriado. Dormir muito aparece como o segundo desejo mais citado, enquanto “não fazer nada” surge como objetivo declarado de uma parcela relevante da população.
O dado chama atenção especialmente entre os mais jovens. Brasileiros de até 34 anos, que historicamente concentravam a energia da folia, lideram os índices de quem prefere descanso absoluto. O que se observa não é apatia, mas exaustão. O Carnaval, nesse contexto, deixa de ser exceção libertadora e passa a funcionar como válvula de recomposição emocional.
Comida simples, bebida moderada e pets no sofá
O comportamento doméstico se reflete também no consumo. Churrasco, pizza e delivery dominam o cardápio, enquanto a hidratação ganha protagonismo sobre o álcool. A água aparece como bebida mais citada, seguida por sucos e refrigerantes. Cerveja e vinho surgem com menor força do que em carnavais anteriores, indicando um feriado mais contido, menos excessivo e mais funcional.
Até os pets entram no centro da experiência. Mais de 70% dos tutores afirmam que seus animais passarão o feriado com eles em casa, reforçando o caráter afetivo e familiar do chamado “Carnaval do sofá”.
Menos gasto, menos rua, mais controle
A pesquisa também revela um freio claro no orçamento. Metade dos brasileiros pretende gastar, no máximo, R$ 250 extras durante o período, enquanto quase um quarto afirma que não vai gastar absolutamente nada além da rotina normal. O dado ajuda a entender por que a rua perde espaço: sair custa caro, é imprevisível e oferece pouco retorno emocional para quem já está financeiramente pressionado.
“O que a pesquisa mostra não é um desinteresse pelo Carnaval, mas uma mudança clara de território de consumo. O brasileiro continua querendo viver o clima da data, só que agora em ambientes controlados, confortáveis e mais previsíveis. Para as marcas, isso desloca a atenção da rua para a casa, da ativação física para a experiência integrada entre conteúdo, digital, delivery e entretenimento. O Carnaval de 2026 é menos sobre presença e mais sobre pertinência”, analisa Albano, CSO da Score.
Outro mito que cai é o de que “o Brasil só começa a funcionar depois do Carnaval”. Embora 40,2% ainda acreditem nessa lógica, 22,1% afirmam que ela já ficou no passado. O país mudou, o ritmo urbano mudou e o feriado passou a ser absorvido como pausa pessoal, não como suspensão coletiva da vida produtiva.
Foto de capa: Divulgação
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