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A 80 dias da COP30, Belém vive crise de hospedagem e pressão internacional

Menos de 30% dos países confirmaram presença, ONU cobra subsídio do Brasil e governo rebate. Barcos da Previdência Social serão usados como alojamento e Lula insiste que a conferência não poderia ser em outro lugar que não fosse a Amazônia

Menos de 30% dos países confirmaram presença, ONU cobra subsídio do Brasil e governo rebate. Barcos da Previdência Social serão usados como alojamento e Lula insiste que a conferência não poderia ser em outro lugar que não fosse a Amazônia

Faltando pouco menos de três meses para a COP30, em Belém (PA), a preparação para a conferência climática da ONU está cercada de polêmica e improviso. Até agora, apenas 47 países confirmaram presença entre os 196 esperados, em meio ao caos causado pelos preços abusivos de hospedagem na capital paraense.

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Em reunião fechada nesta sexta-feira (22), a ONU pediu que o Brasil arque com parte dos custos das delegações. A secretária-executiva da Casa Civil, Miriam Belchior, rechaçou a proposta.

“O governo brasileiro já está arcando com custos significativos para a realização da COP e, por isso, não há como subsidiar delegações de países. Nós falamos claramente que o Brasil não tem condição, mas que essa proposta de a ONU subir um pouquinho a contribuição — que é o auxílio que ela dá aos países — em qualquer outra cidade do mundo eles pagariam. Então, por que não pagar em Belém?” – Miriam Belchior, secretária-executiva da Casa Civil.

Segundo dados oficiais, apenas 39 países fizeram reservas pela plataforma do governo federal, em sua maioria países em desenvolvimento. Outros oito — entre eles Egito, Espanha, Portugal, Japão e Noruega — optaram por negociar diretamente com hotéis. O contraste com a COP anterior, em Baku (Azerbaijão), onde 195 países enviaram delegações, é evidente.

O problema está no bolso. Há acomodações cobrando mais de R$ 1 milhão pelos 11 dias da conferência, com diárias acima de US$ 2 mil. Para delegações de países mais pobres, o valor é inviável. O ministro do Meio Ambiente do Panamá, representante da ONU, disparou em rede social: é “inaceitável fingir que está tudo bem enquanto as delegações enfrentam condições impossíveis” e classificou a situação como uma “insanidade e um insulto”.

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Para lidar com a crise, o governo montou uma força-tarefa envolvendo Casa Civil, Itamaraty, Ministério do Turismo, governo do Pará e a presidência da COP. Além de negociar com a rede hoteleira, surgiram soluções alternativas. Uma delas foi anunciada neste sábado (23): os chamados PREVbarcos, embarcações que normalmente funcionam como agências flutuantes da Previdência Social, serão adaptados para receber delegações. Cada barco tem capacidade para 34 pessoas, oferecendo 68 vagas no total. O ministro da Previdência, Wolney Queiroz, já reservou uma cabine para si e convidou a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a se hospedar nas embarcações — ela ainda não confirmou.

Mesmo com os improvisos, as críticas continuam. O secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, cobrou mais responsabilidade.

“O Brasil precisa fazer o seu dever de casa. Não é possível que agora o Brasil esteja respondendo a questionamentos sobre hospedagens dos outros países. Não temos mais o luxo do tempo quando a gente fala em clima. Os eventos extremos não esperam as negociações dentro das salas de ar-condicionado. Isso vai avançando. O clima extremo vai fazendo vítimas ao redor do planeta. Então, não é uma opção falhar. Não é uma opção a gente não ter ambição, não tirar as coisas do papel e não entregar para a população ao redor do mundo o que precisa ser negociado e, principalmente, o que precisa ser feito” – Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

A pressão não vem apenas da sociedade civil. Delegações oficiais já reclamaram formalmente dos custos e pediram providências. A Áustria, por exemplo, anunciou que não enviará seu presidente, Alexander Van der Bellen, alegando incompatibilidade entre os custos logísticos da viagem e as exigências de disciplina orçamentária interna.

Mesmo assim, o governo brasileiro defende a escolha de Belém como sede. Em discurso durante a V Cúpula de Presidentes da OTCA (Tratado de Cooperação Amazônica), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou que a decisão foi estratégica.

“Quando oferecemos o Brasil como sede da COP30, sabíamos que essa reunião não poderia acontecer em nenhum outro lugar senão na Amazônia. Há muito tempo que os países ricos nos acusam de não cuidar da floresta. Aqueles que poluíram o planeta tentam impor modelos que não nos servem” – Lula, na V Cúpula de Presidentes do Tratado de Cooperação Amazônica.

Lula ainda anunciou quatro frentes de diálogo da presidência brasileira da COP30: o círculo dos presidentes de COPs anteriores, o círculo dos ministros da Fazenda, o círculo dos Povos, com foco em indígenas e comunidades negras, e o círculo do Balanço Ético Global, voltado para guiar a transição energética justa. Também confirmou o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que remunerará países que preservarem suas áreas verdes.

Na prática, Belém se tornou palco de uma disputa global que vai além do debate climático: a capacidade logística do Brasil para sediar um evento de tamanha magnitude. Entre preços exorbitantes, improvisos de última hora e pressões diplomáticas, a COP30 já deixou claro — antes mesmo de começar — que não será apenas uma conferência ambiental, mas também um teste político e organizacional para o governo Lula.

Foto de capa: Divulgação

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