O Museu da Casa Brasileira inaugura sua nova sede na Residência Olivo Gomes, no Parque da Cidade, com a exposição “Sob a Casa, Outras Casas”. A mostra, com curadoria de Giancarlo Latorraca, Isabel Xavier e Guilherme Wisnik, propõe um olhar plural sobre a habitação brasileira, partindo do princípio de que a identidade do morar nacional é composta por múltiplas narrativas simultâneas.
A exposição integra o acervo da instituição à arquitetura modernista de Rino Levi e ao paisagismo de Roberto Burle Marx, criando um diálogo entre diferentes patrimônios dentro de um dos principais exemplares da arquitetura moderna paulista.
Núcleo “Diversas Formas do Sentar”: encontro entre práticas indígenas e modernismo
Na ampla área social do imóvel, a exposição apresenta o primeiro núcleo temático, “Diversas Formas do Sentar”. Este espaço contrasta práticas indígenas ligadas ao sentar próximo ao chão com o mobiliário moderno e industrial do século XX.
A seleção reúne esteiras, redes, bancos e cadeiras indígenas lado a lado com poltronas e sofás de design modernista. Fotografias da série “Casas do Brasil” complementam o diálogo entre essas diferentes formas de habitar, evidenciando como culturas distintas desenvolveram respostas materiais específicas para uma mesma necessidade humana.
Núcleo “Uma Aproximação ao Lugar”: história da Residência e do Vale do Paraíba
No pavimento inferior, junto ao jardim, encontra-se o núcleo “Uma Aproximação ao Lugar”, dedicado a resgatar a história da própria Residência Olivo Gomes, do Parque Burle Marx, da antiga Tecelagem Parahyba e da ocupação histórica do Vale do Paraíba.
O destaque principal deste ambiente é o sofá Olivo, peça originalmente desenhada por Rino Levi para a sala de estar da residência. Reintegrado especialmente para a exposição, o móvel marca o retorno simbólico do acervo à sua origem, funcionando como elo entre a história arquitetônica do edifício e a narrativa expositiva.
Núcleo “Os Armários Nômades”: transformações nas formas de morar
O terceiro núcleo, “Os Armários Nômades”, explora a evolução dos sistemas de armazenamento doméstico e a transição entre modos de vida itinerantes e permanentes. O espaço reúne cestos indígenas, canastras e baús históricos, ilustrando como diferentes povos e períodos desenvolveram soluções para o armazenamento de pertences.
A progressão visual entre esses objetos evidencia a passagem de práticas móveis para estruturas permanentes, acompanhando transformações nas formas de ocupação territorial e nos padrões habitacionais.
Núcleo “Dois Quartos Distintos”: contrastes sociais e materiais da formação brasileira
O espaço intitulado “Dois Quartos Distintos” apresenta uma contraposição deliberada entre dois dormitórios que evidenciam as profundas diferenças materiais, sociais e culturais presentes na formação do país.
Um dormitório recria o ambiente rústico dos primeiros tempos da colonização, enquanto o outro é marcado pelo refinamento ornamental do período imperial. A justaposição desses espaços questiona narrativas uniformes sobre a história habitacional brasileira, demonstrando como classes sociais distintas experienciaram — e experienciam — formas radicalmente diferentes de morar.
Núcleo “O Trabalho de Triturar”: tecnologia doméstica e transições de vida
O percurso da exposição se completa com o núcleo “O Trabalho de Triturar”, dedicado aos utensílios domésticos ligados à preparação de alimentos. Pilões, moedores manuais, batedeiras e liquidificadores formam uma sequência que ilustra as transformações tecnológicas na rotina doméstica.
A progressão desses objetos pontua mudanças nos modos de viver, marcando a transição histórica do ambiente rural para o urbano e as alterações nas relações de trabalho doméstico que acompanharam essa mudança.
Narrativa fotográfica complementa peças de acervo
A exposição é complementada por ensaios fotográficos de autores como Andrés Otero, Iatã Cannabrava e Milton Guran. Essas séries documentam a diversidade habitacional brasileira, desde palafitas amazônicas até apartamentos urbanos, integrando imagens contemporâneas ao acervo histórico e material.
As fotografias funcionam como testemunhos visuais das narrativas propostas pelos núcleos temáticos, oferecendo representações do habitar em diferentes regiões e contextos sociais do país.
Museu retorna após três anos sem sede
O Museu da Casa Brasileira permaneceu sem sede fixa desde abril de 2023, quando encerrou convênio com a Fundação Padre Anchieta (FPA) que mantinha suas operações em casarão da Zona Oeste de São Paulo. A instalação na Residência Olivo Gomes marca o retorno da instituição como espaço ativo de exposições e difusão cultural.
O projeto representa também movimento de descentralização de grandes acervos para além dos limites da capital paulista, trazendo referências nacionais de arquitetura e design para polo regional do Vale do Paraíba.
Exposição “Sob a Casa, Outras Casas – Museu da Casa Brasileira na Residência Olivo Gomes”
Funcionamento: quinta a domingo, das 10h às 17h
Local: Residência Olivo Gomes – Parque da Cidade (Avenida Olivo Gomes, 100, Santana, São José dos Campos)
Entrada: Gratuita
Realização: Museu da Casa Brasileira (Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo), com parceria de APAC (Associação Pinacoteca Arte e Cultura), Prefeitura de São José dos Campos e Fundação Cultural Cassiano Ricardo
Foto de capa: Claudio Vieira/PMSJC
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