Internacional

Trump lança Conselho da Paz em Davos e gera receio de esvaziamento do papel da ONU

Iniciativa criada e presidida pelo presidente dos EUA prevê atuação global, cobrança de US$ 1 bilhão por cadeira permanente e levanta dúvidas sobre legitimidade internacional

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Trump lança em Davos Conselho da Paz e gera receio de esvaziamento do papel da ONU

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou nesta quinta-feira (22), durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, o chamado Conselho da Paz, iniciativa idealizada, criada e presidida por ele. O projeto nasce com foco inicial na consolidação do cessar-fogo em Gaza, mas, segundo o próprio Trump, poderá assumir um papel mais amplo em conflitos globais.

Em discurso, Trump afirmou que o conselho atuaria de forma complementar às Nações Unidas, embora o desenho da proposta tenha provocado apreensão entre diplomatas e analistas internacionais. “Quando esse conselho estiver completamente formado, poderemos fazer praticamente tudo o que quisermos. E faremos isso em conjunto com as Nações Unidas”, disse o presidente, acrescentando que a ONU tem “grande potencial que não foi totalmente utilizado”.

Trump convidou dezenas de líderes mundiais a participar da iniciativa, inclusive o presidente brasileiro, e declarou que deseja que o conselho trate de desafios que vão além da trégua, ainda frágil, em Gaza. A proposta, no entanto, despertou dúvidas sobre a possibilidade de o novo órgão abalar o papel da Organização das Nações Unidas como principal plataforma global de diplomacia e resolução de conflitos.

Adesões limitadas, recusas explícitas e modelo financeiro contestado

Apesar da retórica otimista do presidente norte-americano, a adesão internacional tem sido cautelosa. Outras grandes potências e aliados tradicionais dos Estados Unidos hesitaram em entrar no conselho ou recusaram o convite. França e Reino Unido já indicaram que não pretendem aderir neste momento. A China ainda não se manifestou, enquanto a Rússia afirmou que está analisando a proposta.

Segundo Trump, os membros permanentes do Conselho da Paz deverão contribuir com um pagamento de US$ 1 bilhão cada para financiar a iniciativa, fundo que será administrado exclusivamente pelo próprio presidente. O modelo de financiamento e a centralização do comando levantaram questionamentos sobre governança, transparência e equilíbrio de poder.

Representantes de países apresentados como membros fundadores estavam presentes na cerimônia de assinatura em Davos, mas a Reuters informou não ter identificado representantes de outras grandes potências globais, nem de Israel ou da Autoridade Palestina, durante o evento.

No âmbito institucional, o porta-voz da ONU, Rolando Gomez, afirmou que o endosso da organização ao conselho está restrito ao contexto específico do plano de paz para Gaza, deixando claro que não há reconhecimento de um papel mais amplo ou substitutivo em relação às atribuições tradicionais das Nações Unidas.

Embora cerca de 35 países tenham sinalizado disposição para participar, entre eles Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Turquia e Belarus, poucos são considerados democracias consolidadas. Israel e Hungria, cujos líderes são vistos como aliados próximos de Trump, confirmaram adesão.

O lançamento do Conselho da Paz ocorre em um momento de forte instabilidade internacional, com conflitos simultâneos e crescente disputa por protagonismo geopolítico. A iniciativa de Trump, ao mesmo tempo em que se apresenta como solução, reabre o debate sobre unilateralismo, legitimidade e os limites da diplomacia personalizada em um cenário global cada vez mais fragmentado.

Foto de capa: Fabrice Coffrini/AFP

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Escrito por
Dimas Vilas Boas

Dimas Vilas Boas é jornalista e editor do Diário de São José. Atua na cobertura de temas ligados à cidade, com foco em jornalismo local, análise e contexto sobre os fatos que impactam o cotidiano de São José dos Campos e região.

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