Economia

Contraste: Fed corta juros, mas Banco Central mantém Selic em 15%

Enquanto os EUA iniciam ciclo de afrouxamento, Brasil segue com juros altos, adiando expectativa de alívio para famílias e empresas

Banco Central e SELIC. Taxa básica de juros mantém índice

O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve nesta quarta-feira (17) a taxa básica de juros em 15% ao ano, o maior patamar desde 2006. A decisão veio em linha com o que já era esperado pelo mercado, mas reforça a mensagem de que o Banco Central não pretende reduzir os juros tão cedo, mesmo em um ambiente internacional de flexibilização monetária. No mesmo dia, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, cortou sua taxa em 0,25 ponto percentual, iniciando um ciclo de queda após longo período de estabilidade.

Para o trabalhador brasileiro, que sente no bolso o custo do crédito, a decisão significa que continua difícil financiar um carro, renegociar dívidas ou abrir um pequeno negócio. O recado é claro: os juros seguem altos, e o alívio pode demorar.

“O Copom decidiu manter a taxa básica de juros inalterada em 15,00% a.a., conforme amplamente esperado pelos agentes”, explica Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg. Segundo ele, o comunicado não trouxe surpresas.

“O tom do texto seguiu indicando poucas chances de cortes de juros no curto prazo. O comitê seguirá vigilante, avaliando se a manutenção do nível atual da Selic por um período bastante prolongado será suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta. Informou, ainda, que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado.”

Serrano projeta que a queda dos juros só deve começar em 2026: “No geral, o documento veio muito alinhado com o que esperávamos e não muda nossa avaliação sobre o início dos cortes, que deverá começar apenas no 1T26.”

Impacto no bolso e nos investimentos

Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos, lembra que a decisão contrasta com a do Fed: “A decisão do Fed veio dentro do esperado e abre um novo ciclo de flexibilização, o que tende a beneficiar mercados emergentes como o Brasil. Aqui, o grande ponto de atenção é o momento em que os cortes da Selic poderão acontecer. Ainda é cedo para antecipar, mas vejo como mais provável que isso ocorra apenas no início de 2026.”

Ele aponta que o corte nos EUA já mexe com os mercados: “A Bolsa brasileira já vinha batendo recordes na esteira da expectativa de cortes pelo Fed. Com a efetivação do corte, os ativos que mais se beneficiam são a renda variável e os papéis pré-fixados de prazos mais longos. Já no câmbio, juros mais baixos nos Estados Unidos e ainda elevados no Brasil aumentam o fluxo de capital para mercados emergentes, fortalecendo o Real e pressionando o dólar para baixo.”

Mercado de dívida mais caro

Para Luiz Rafael Maluf, sócio e head de Mercado de Capitais do CGM Advogados, a Selic em 15% tem efeitos diretos no financiamento das empresas. “A decisão de manter a taxa em 15% reforça a postura contracionista do Copom e prolonga o maior nível desde 2006. Para o mercado de dívida, que inclui debêntures, notas comerciais e securitizações, a taxa estável mantém o custo de captação elevado, mas garante previsibilidade.”

Ele destaca que, nesse cenário, empresas sólidas têm mais chance de se financiar: “Esse cenário preserva a disciplina fiscal e adia o início de um ciclo de flexibilização, mantendo a exigência por estruturas mais robustas, garantias reforçadas e maior transparência nas ofertas.”

Na prática, o trabalhador que depende do crediário para comprar eletrodomésticos, do cartão para fazer a feira ou do financiamento para investir no negócio próprio, segue travado pelos juros altos. Enquanto o Fed sinaliza confiança em um ciclo de recuperação lá fora, por aqui o aperto continua, e a mensagem é de que a vida cara vai seguir por mais tempo.

O que muda — e o que não muda — para o trabalhador

  • Crédito mais caro: financiamento de carro, casa ou empréstimo pessoal continuam pesados no bolso. Bancos e financeiras não vão reduzir taxas enquanto a Selic seguir em 15%.
  • Dívidas mais difíceis de renegociar: quem já está enrolado no cartão ou no cheque especial encontra menos espaço para descontos. O juro alto dá força aos credores.
  • Inflação mais controlada: a parte “boa” dos juros altos é que eles seguram a alta de preços. A expectativa é de que o custo da cesta básica e de serviços não exploda, embora siga pressionado.
  • Emprego ainda pressionado: o mercado de trabalho segue aquecido em alguns setores, mas a manutenção dos juros por mais tempo tende a frear contratações em 2025.
  • Dólar mais baixo, produtos importados mais baratos: com o Fed cortando juros e o Brasil mantendo a Selic elevada, a tendência é de entrada de capital estrangeiro e fortalecimento do real, o que pode aliviar preços de eletrônicos, viagens e combustíveis.

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