Política

Quem será o novo representante do bolsonarismo em 2026?

A condenação de Jair Bolsonaro pelo STF abriu uma ferida política que vai além do ex-presidente. Se por um lado selou sua inelegibilidade, por outro reacendeu a disputa interna sobre quem herdará a bandeira de um movimento que se tornou maior que o próprio líder

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Quem será o novo representante do bolsonarismo em 2026

O dia 11 de setembro de 2025 ficará registrado como um marco para a política brasileira. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro (PL) a 27 anos e 3 meses de prisão em regime inicial fechado, por sua participação na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

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O resultado foi 4 a 1 pela condenação. Apenas Luiz Fux destoou, votando pela absolvição. Para a maioria, as provas eram contundentes: Bolsonaro não apenas flertou com uma ruptura institucional, mas teria liderado e inspirado um movimento para desacreditar as urnas e manter-se no poder mesmo após a derrota.

O processo transformou o ex-presidente e mais sete em réus por crimes como associação criminosa, tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito e dano ao patrimônio público. “Não se trata de mera retórica inflamada ou discurso político”, escreveu o relator Alexandre de Moraes em seu voto. “Estamos diante de um projeto de poder que afrontou a Constituição e tentou rasgar o pacto democrático.”

A exceção é o réu Alexandre Ramagem, que foi condenado somente pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Deputado federal em exercício, ele foi beneficiado com a suspensão de parte das acusações e respondia somente a três dos cinco crimes imputados pela PGR. 

Dos oito, apenas o coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro e delator do processo, foi condenado com uma pena muito mais branda, dois anos em regime aberto. A defesa do militar já adiantou inclusive que pediria pela extinção da pena, uma vez que Cid foi preso preventivamente em maio de 2023.

“Considerando [que] a pena imposta foi de dois anos, e que, Mauro Cid está com restrição de liberdade havidos mais de dois anos e quatro meses, entre prisão preventiva e as cautelares diversas da prisão – desde maio de 2023, extinto está, fora de toda dúvida, o cumprimento da pena”, argumentou a defesa.

Recursos, mas não salvação

Do ponto de vista jurídico, a defesa de Bolsonaro ainda tem cartas na manga. O primeiro passo é a publicação do acórdão, documento que reúne os votos e formaliza o julgamento. A partir daí, abre-se a possibilidade de embargos de declaração, recurso que questiona omissões ou contradições do processo.

É possível também recorrer com embargos infringentes ou até apresentar pedidos extraordinários ao Plenário do STF e ao STJ. Essas estratégias podem atrasar a execução da pena, mas não alteram um ponto crucial: Bolsonaro está inelegível até 2030, por decisão já consolidada no Tribunal Superior Eleitoral em 2023.

Com a condenação no STF, a inelegibilidade de Bolsonaro passa para 2060. Porém, o Senado aprovou uma mudança na Lei da Ficha Limpa para reduzir o tempo de inelegibilidade. A nova regra está no PLP 192/2023 e já foi enviada ao Palácio do Planalto para sanção ou veto presidencial.

Se a matéria for sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o prazo da inelegibilidade de Bolsonaro pode acabar em 2033, pois os oito anos de inelegibilidade começariam a contar a partir da data da condenação, ocorrida ontem.

Com o atual cenário, Bolsonaro só deve voltar a disputar as eleições com a aprovação de uma lei pelo Congresso para anistiar a condenação na ação da trama golpista.

Dessa forma, apoiadores do ex-presidente na Câmara dos Deputados devem iniciar na próxima semana as articulações para convencer o presidente da Casa, Hugo Motta, a colocar a matéria em votação.

Em outras palavras, ainda que os recursos prolonguem o embate jurídico, o futuro político de Bolsonaro está bloqueado. O que resta em aberto é o tamanho de sua influência sobre o sucessor.

O vácuo no comando do movimento

Se Bolsonaro não pode estar nas urnas, a pergunta é: quem vai carregar a tocha?

O bolsonarismo não é apenas uma candidatura. É uma identidade política enraizada em milhões de brasileiros, com discurso antipetista, conservador e anti-establishment. O movimento sobrevive mesmo sem o líder — mas quem encarna esse sentimento em 2026?

Valdemar Costa Neto, presidente do PL, não titubeia em manter a lealdade: “O nosso candidato é Bolsonaro. Se ele não puder, será quem Bolsonaro apontar.” A fala traduz tanto a dependência quanto a falta de plano B estruturado no partido.

E é nesse vazio que surgem nomes. Entre eles, dois se destacam: Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

A ex-primeira-dama ocupa um lugar único. Ao lado de Bolsonaro desde a ascensão política, Michelle se projetou nacionalmente em 2019, ao assumir pautas sociais e religiosas no governo. Nos últimos anos, intensificou sua atuação em eventos evangélicos, consolidando-se como porta-voz de valores conservadores.

Sua força está no vínculo emocional. Para muitos eleitores, Michelle não é apenas esposa de Bolsonaro, mas a continuidade de sua narrativa. Sua imagem limpa, somada à capacidade de dialogar com o eleitorado feminino e religioso, a transforma em candidata natural dentro da família.

Mas há riscos. Michelle nunca disputou um cargo majoritário, não tem trajetória política autônoma e dependeria integralmente da máquina partidária e da militância bolsonarista. Além disso, setores da direita a veem mais como símbolo de fidelidade do que como liderança com musculatura própria.

Se Michelle encarna a herança afetiva, Tarcísio de Freitas surge como a aposta pragmática. Atual governador de São Paulo, Tarcísio construiu carreira técnica como ministro da Infraestrutura no governo Bolsonaro e conquistou em 2022 a vitória sobre Fernando Haddad no maior colégio eleitoral do país.

Pesquisas recentes o colocam como alternativa competitiva para 2026, capaz de unir parte da base bolsonarista com setores mais moderados da direita. “Tarcísio tem experiência de gestão, perfil técnico e a chancela de Bolsonaro”, avaliam dirigentes do Republicanos.

Mas nem tudo joga a seu favor. O governador enfrenta resistência dos setores mais radicais, que o veem como moderado demais. Além disso, sua filiação ao Republicanos cria atritos com o PL, que deseja manter o protagonismo. Sua candidatura dependeria de costuras delicadas entre partidos e movimentos sociais de direita.

Entre a herança e a sobrevivência

A escolha entre Michelle e Tarcísio simboliza o dilema do bolsonarismo. De um lado, manter a chama acesa com a presença familiar, em torno de uma candidatura que represente lealdade incondicional a Jair Bolsonaro. De outro, investir em um nome que possa ampliar o alcance eleitoral e evitar o isolamento político em 2026.

O fato é que, condenado e inelegível, Bolsonaro já não é apenas personagem central, mas também fantasma. Ele não estará na urna, mas “estará” em cada palanque, cada comício e cada debate sobre o futuro da direita.

E o bolsonarismo, mais do que nunca, precisa decidir se quer permanecer como um movimento de resistência emocional em torno de um líder ausente ou se pretende se reinventar como projeto político viável nas próximas eleições.

Foto de capa: Reprodução/Folha de São Paulo

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Escrito por
Redação do Diário de São José

Núcleo editorial responsável pela produção, curadoria e edição de conteúdos do Diário de São José. Jornalismo local, independente e analítico, feito para quem vive, trabalha e movimenta São José dos Campos. Aqui, a notícia vem com contexto, olhar crítico e compromisso com o que realmente importa para a cidade.

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