A discussão sobre quem deve pagar a conta da saúde pública em São José dos Campos voltou à tona nesta semana. Durante evento de lançamento da nova maternidade municipal, o secretário de Saúde, George Zenha, fez um alerta direto: o Hospital Municipal Dr. José de Carvalho Florence, o principal do Vale do Paraíba, é mantido 100% com recursos do município, ao custo de aproximadamente R$ 350 milhões por ano.
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Segundo o secretário, a estrutura atual está sobrecarregada porque recebe pacientes de dezenas de cidades da região que, sem alternativa local, recorrem à rede joseense.
“As pessoas saem de suas casas, pegam a Dutra, a Tamoios, a Ayrton Senna, e vêm se tratar aqui, quando deveriam ser atendidas no município de origem”, afirmou Zenha.
A crítica foi acompanhada de um chamado público ao governo estadual para repactuar os atendimentos com o Hospital Regional e aos municípios vizinhos para que “façam a sua parte”.
A declaração de Zenha reforça um incômodo antigo da gestão municipal: o modelo de porta aberta, que permite a entrada de qualquer paciente pelo SUS, independentemente do local de origem. Em uma cidade com cerca de 700 mil habitantes, o número de usuários do SUS cadastrados ultrapassa 1 milhão — uma distorção que escancara o colapso da gestão regionalizada da saúde pública.
O secretário lembrou ainda que o hospital municipal, apesar de ser um dos maiores do Brasil e referência para todo o Vale, não recebe repasses proporcionais nem do governo estadual, nem do federal. “É o imposto do joseense que está sustentando tudo isso”, reforçou.
A fala dele é a mesma que ecoou no Legislativo. Em sessão recente da Câmara Municipal, o vereador Roberto Chagas (PL) cobrou que o debate político deixe de lado disputas ideológicas e se concentre nas prioridades reais da cidade. “A gente fica nesse fogo cruzado. É PT, é PL, é Direita… Pelo amor de Deus! Vamos pensar na nossa cidade! Vamos pensar nos nossos problemas na comunidade, os nossos hospitais que ainda estão com os leitos mais do que ocupados”, desabafou.
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O presidente da Câmara, Roberto do Eleven (PSD), foi na mesma linha e completou: “Se não fossem enviados pacientes de fora da cidade, os recursos seriam suficientes para atender a população local”. Já o vereador Zé Luis (PSD) foi além, acusando os governos estadual e federal de negligência. “A cada 100 reais que é gasto ali no hospital chamado de portas abertas, o joseense que está pagando”, afirmou.
As críticas têm fundamento. O Hospital Municipal de São José dos Campos — fundado em 1978 como Pronto-Socorro Dr. Carlino Rossi — passou por uma série de ampliações ao longo das décadas. Hoje, é gerido pela SPDM – Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina, e reúne unidades como centro cirúrgico, obstétrico, clínicas e ambulatório. Desde 2006, opera com um modelo complexo de atendimentos e internações, funcionando como um verdadeiro hub hospitalar regional, sem contrapartida proporcional dos entes federativos.
Durante o evento, Zenha também falou sobre as obras da nova maternidade, que terá 150 novos leitos e ajudará a desafogar o hospital principal, devolvendo cerca de 90 leitos ao longo dos próximos dois anos. Mas fez questão de destacar que, mesmo com novas estruturas, não adianta ampliar o atendimento se os demais municípios e esferas de governo continuarem ausentes na responsabilidade do financiamento.
Outro ponto abordado pelo secretário foi a dificuldade em manter especialistas em áreas como reumatologia, ortopedia e outras de alta demanda. Ele defendeu que o município está apostando em linhas de cuidado mais resolutivas na atenção básica, além de lançar um decreto de saúde digital, investindo em telemedicina e credenciamentos médicos para tentar suprir a falta de profissionais que aceitem atuar na rede pública.
“Não adianta sair aumentando exame e consulta e não ter avaliação cirúrgica proporcional. Cerca de 30% das consultas especializadas solicitadas hoje são desnecessárias. Isso precisa ser corrigido com inteligência, não com volume”, disse.
A fala de Zenha e a reação do Legislativo reacendem um debate importante: até quando São José dos Campos vai carregar sozinha o sistema de saúde regional? Com a cidade bancando uma estrutura que beneficia centenas de milhares de pessoas de fora, a pressão política por uma redistribuição mais justa dos recursos deve crescer nos próximos meses — especialmente com a chegada de novas estruturas, como a maternidade, e o aumento das demandas.
Foto de capa: Claudio Vieira/PMSJC









