A Igreja São Benedito, no Centro de São José dos Campos, vai passar pelo maior restauro de sua história recente. A Prefeitura abriu a licitação para contratar a obra, orçada em R$ 13.737.564,69, e o prazo para as empresas apresentarem propostas vai até as 8h29 de 14 de dezembro. Quem ganhar terá 720 dias corridos — dois anos praticamente — para entregar o prédio pronto, segundo o edital da Concorrência Eletrônica aberto em 13 de outubro.
A igreja fica na Praça Afonso Pena e é datada de 1879. São 147 anos de prédio erguido pela técnica da taipa de pilão: terra socada dentro de formas de madeira, camada por camada, até formar paredes maciças. É justamente essa parede de terra o maior problema da obra — e a parte mais delicada dela.
O prédio é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), órgão do governo estadual, e também protegido por lei municipal. Na prática, isso significa que nada pode ser simplesmente trocado por material novo: cada peça precisa ser recuperada ou refeita igual à original, com aprovação dos órgãos de patrimônio.
Rachaduras já foram tapadas em 2010 — e voltaram a abrir
O documento mais revelador do processo é o memorial descritivo, a peça técnica que descreve serviço por serviço o que será feito. Nele, a Prefeitura conta que as rachaduras da igreja já foram tratadas na obra de 2010 e que o conserto não durou.
O texto é direto sobre o fracasso daquela intervenção: “agora vivenciamos as evidentes reaberturas”. E registra que o caminho adotado na época foi definido em uma reunião técnica de 10 de novembro de 2010, na Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR), com arquitetos do Condephaat, da Prefeitura e da própria fundação. Segundo o memorial, a decisão teve como norte a ponderação de um arquiteto do Condephaat: “todo restauro é um estudo de viabilidade e variação tecnológica que pode não dar certo, mas que deve ser experimentada e vivenciada”.
Hoje, de acordo com o memorial, quatro rachaduras atravessam a parede de lado a lado, como um rasgo que vai de uma face à outra. Outras duas, atrás do altar, ainda não atravessaram, mas são extensas. As da fachada da frente, entre a porta principal e as janelas laterais, aparecem em fotografias desde o fim da década de 1970 — ou seja, são rupturas antigas.
A solução prevista agora tem até nome próprio no edital: costura da taipa. O memorial descreve o passo a passo. Primeiro, todo o reboco interno será removido para que as equipes vejam o tamanho real do estrago escondido atrás da massa. Depois, ao longo de cada rachadura, serão abertos pequenos cortes a cada 15 centímetros, onde entram vergalhões de ferro retorcidos envolvidos em sisal, a fibra natural usada em cordas. Sobre essas peças vai argamassa de barro, um pedaço de estopa — que funciona como a gaze de uma sutura — e mais uma camada de barro, antes do reboco final.
Nas quatro rachaduras que atravessam a parede, o memorial determina um reforço extra: três barras de ferro na posição vertical, também envolvidas em sisal, antes da costura. E manda trabalhar uma parede por vez, em faixas verticais, para não comprometer a estabilidade do conjunto.
O que o restauro da Igreja São Benedito vai mudar no prédio
A obra não se limita às paredes. Pelo edital, a contratada terá de dar conta de uma lista longa.
Todo o telhado sai. São 837 metros quadrados de telha cerâmica do tipo colonial que serão retirados, com a troca das peças de madeira apodrecidas da estrutura e o reaproveitamento do que ainda estiver bom. As telhas voltam grampeadas com arame de cobre.
O piso de madeira também sai inteiro. Serão retirados 642 metros quadrados de assoalho velho, incluindo o vigamento de apoio, e instalados 955 metros quadrados de tábua nova — o item mais caro da planilha, com R$ 892 mil. Antes disso, o solo recebe impermeabilização e aplicação de inseticida contra cupim de solo em 363 metros quadrados.
A igreja passa por descupinização completa. O memorial prevê o combate aos insetos que comem madeira em todas as peças do prédio, com produto aplicado também sobre a taipa, e a aplicação de verniz antichamas na madeira do forro.
O altar volta ao que era. O retábulo — a grande estrutura de madeira entalhada que fica atrás do altar — e o púlpito, a tribuna elevada de onde se falava aos fiéis, serão restaurados. Só essa frente consome R$ 1,4 milhão.
Portas, janelas e ferragens serão desmontadas peça por peça, identificadas uma a uma, ter a tinta antiga removida, levar enxertos de madeira onde estiverem danificadas e voltar ao lugar. Dobradiças e fechaduras antigas entram no mesmo tratamento.
As paredes serão pintadas com cal, na técnica da caiação, em 3.414 metros quadrados de área externa. Não é escolha estética: segundo o memorial, a cal deixa a parede de terra “respirar” e trocar umidade com o ambiente, o que tinta comum impede.
A parte elétrica é refeita do zero, com fiação nova, alarme, câmeras, cabeamento de rede e para-raios. E a igreja ganha o que hoje não tem: extintores, iluminação e sinalização de emergência, com projeto de combate a incêndio aprovado pelo Corpo de Bombeiros.
Um elevador de vidro até a torre dos sinos
A adequação de acessibilidade é um capítulo à parte. Além de rampas, passarelas de metal, corrimãos duplos e guarda-corpos de vidro, o edital prevê a instalação de um elevador dentro da igreja.
Pela especificação do orçamento, é um elevador de estrutura metálica com fechamento em vidro, para cinco a oito passageiros, três paradas e percurso de até nove metros, cotado em R$ 222.563,30. Conforme o memorial, ele vai ligar a sala do pavimento térreo à sala do púlpito e ao campanário, a torre dos sinos — levando pessoas com mobilidade reduzida a pontos do prédio hoje acessíveis só por escada.
Para abrir espaço ao poço do elevador, a planilha prevê escavação manual, broca de concreto e impermeabilização, serviços lançados dentro da etapa de fundação.
Largo de São Benedito também entra na obra
O entorno será refeito junto com a igreja. Segundo o memorial, o piso de concreto do Largo sai e dá lugar a pavimento de bloquete intertravado. Entram ainda drenagem profunda do solo, rede de águas de chuva, rampas de acessibilidade, corrimãos, paisagismo e a construção de um reservatório de água de reserva técnica para o Corpo de Bombeiros.
Durante toda a obra, a igreja e o Largo ficam fechados por tapumes metálicos, incluindo a calçada da frente, com dois portões: um para caminhões de carga e descarga, outro para a entrada diária dos trabalhadores.
Há também um arqueólogo envolvido. O edital reserva R$ 173.109,00 para monitoramento e resgate arqueológico, com acompanhamento no local de toda escavação que mexer no solo — especialmente as valas de drenagem e a canaleta de ventilação. Se algo de valor histórico aparecer durante as escavações, a obra para naquele ponto até a avaliação do material.
Foto de capa: Divulgação
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