O padre Márlon Múcio recebeu alta hospitalar e já está em casa após passar o Réveillon internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em São José dos Campos, sob suspeita de infarto. A informação foi confirmada pelo próprio religioso em mensagem enviada a fiéis e seguidores nas redes sociais.
“Tive alta, família amada!!! E estou em casa. Passamos o réveillon no hospital, eu e Mamãe Carminha”, escreveu. Segundo ele, após chegar em casa, ainda passou mal e quase precisou retornar ao hospital, mas apresentou melhora ao longo do dia. “Graças a Deus, e a você, que nunca cessa de orar por mim”, completou.
Internação no Réveillon e suspeita de infarto
Márlon foi internado na noite do dia 30 de dezembro após relatar fortes dores. A equipe médica levantou a suspeita inicial de infarto, embora o diagnóstico definitivo não tenha sido fechado naquele momento. Ele permaneceu em observação intensiva e sem previsão de alta durante a virada do ano.
A internação mais recente se soma a uma sequência de atendimentos hospitalares enfrentados ao longo de 2025, período marcado por agravamentos relacionados à Deficiência do Transportador de Riboflavina (RTD), doença genética rara, progressiva e neurodegenerativa com a qual convive.
Um ano marcado por internações recorrentes
Somente em 2025, o padre contabilizou 21 internações e atendimentos de urgência, sendo oito delas em UTI. Em outubro, permaneceu 14 dias internado após complicações decorrentes da quebra da traqueostomia. Em setembro, passou por duas internações seguidas, com intervalo de poucos dias em casa. Em maio, ficou hospitalizado por mais de duas semanas.
De acordo com o próprio religioso, a internação do fim do ano pode ter sido causada tanto por uma intercorrência cardíaca quanto pela progressão da RTD, que tem avançado de forma significativa.
O que é a doença rara que acompanha o padre
A RTD é classificada como doença rara pelo Ministério da Saúde, definição aplicada a condições que afetam menos de uma pessoa a cada dois mil nascidos vivos. No Brasil, estima-se que cerca de 13 milhões de pessoas convivam com algum tipo de doença rara, o equivalente a aproximadamente 6% da população.
No caso de Márlon Múcio, o diagnóstico correto só veio aos 45 anos, após décadas de sintomas, exames e tratamentos equivocados. Os primeiros sinais surgiram ainda na infância, quando perdeu a audição aos 7 anos. Com o passar do tempo, surgiram dificuldades para mastigar, fadiga intensa e problemas respiratórios.
Atualmente, para se manter vivo, o padre relata fazer uso diário de 315 comprimidos, em uma rotina extrema de tratamento contínuo e acompanhamento médico permanente.
Por que Padre Márlon mobiliza tantas pessoas?
A comoção em torno do estado de saúde de Márlon Múcio não se explica apenas pela sua condição clínica. Ao longo dos últimos anos, ele se tornou uma das vozes mais conhecidas do país quando o tema é doenças raras, justamente por expor a própria fragilidade de forma pública e transformar sua história pessoal em instrumento de conscientização.
Além da atuação religiosa, o padre é fundador da Casa de Saúde Nossa Senhora dos Raros, hospital especializado no atendimento gratuito a pessoas com doenças raras, localizado em Taubaté. A unidade é considerada pioneira no Brasil e foi criada justamente a partir da experiência do próprio religioso com o diagnóstico tardio.
O hospital atua com profissionais voluntários, atendimento presencial e por telemedicina, e tem como missão reduzir a chamada “odisseia diagnóstica”, que pode levar anos — ou décadas — até a identificação correta da doença.
Márlon também é autor de mais de 40 livros, teve sua trajetória retratada no filme Milagre Vivo e reúne mais de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais, onde fala de fé, saúde, espiritualidade e políticas públicas.
Fé como sustentação em meio à doença
Mesmo durante a internação, o padre manteve sua rotina espiritual. Em uma das mensagens publicadas enquanto ainda estava hospitalizado, escreveu:
“Não importa onde eu esteja nem como esteja, a celebração da Santa Missa diária é o meu chão firme, o meu fôlego e o meu Céu antecipado. Quando tudo falta, ela permanece.”
Após a confirmação da alta, seguidores e fiéis inundaram as redes com mensagens de agradecimento e apoio. “Muito feliz pela sua alta da UTI”, escreveu uma internauta. “É muita gente rezando pelo senhor”, comentou outra.
Um caso individual que expõe um problema coletivo
A história de Márlon Múcio volta a evidenciar um problema estrutural do sistema de saúde brasileiro: a dificuldade de diagnóstico, tratamento e acompanhamento de pessoas com doenças raras. O acesso limitado a especialistas, exames genéticos e centros de referência ainda é realidade para milhões de famílias.
Agora em casa, em recuperação, o padre inicia 2026 fora do hospital — uma boa notícia após um ano marcado por idas e vindas à UTI, mas que não encerra a complexidade do seu quadro clínico nem o debate mais amplo que sua história ajuda a iluminar.









