O Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de cerca de 10 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, entrou em faixa de restrição após atingir 29,42% de volume útil — o menor índice desde janeiro de 2022. Diante do cenário, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) recebeu autorização da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e da SP Águas para recorrer novamente à Bacia do Rio Paraíba do Sul, reforçando a dependência histórica da capital paulista em relação às águas do Vale.
A partir de 1º de outubro, o Cantareira passa a operar com limite de retirada de 23 m³/s, abaixo dos 27 m³/s que eram autorizados na faixa de alerta. Para compensar a diferença, a Sabesp poderá transferir até 10 m³/s da represa do Jaguari — que integra a bacia do Paraíba do Sul — para o reservatório de Atibainha, um dos cinco que compõem o Cantareira.
Além disso, a Sabesp anunciou a ampliação da redução da pressão noturna na região metropolitana, que passa a durar dez horas, das 19h às 5h. A medida cumpre determinação da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo) e busca preservar o volume armazenado.
Pressão sobre o Vale do Paraíba
O anúncio reacende o debate no Vale do Paraíba sobre os impactos da transposição. A região, que também enfrenta estiagens recorrentes e registra níveis de reservatórios abaixo da média histórica, vê parte de seus recursos hídricos sendo destinada ao abastecimento da capital e da região de Campinas.
Especialistas alertam que, embora a transposição seja prevista desde 2018 como medida de segurança hídrica, o uso frequente do Paraíba do Sul para suprir a Grande São Paulo pode comprometer a disponibilidade para cidades do Vale e para o Rio de Janeiro, onde o rio deságua. A bacia do Paraíba já abastece milhões de pessoas em três estados, além de atender ao setor industrial e à geração de energia elétrica.
Regras e faixas de operação
A gestão do Cantareira segue parâmetros definidos pela Resolução Conjunta nº 925/2017, criada após a crise hídrica de 2014/2015. O documento estabeleceu cinco faixas de operação, que determinam limites de retirada de acordo com o volume acumulado:
- Faixa 1 (normal): acima de 60% – retirada de até 33 m³/s
- Faixa 2 (atenção): entre 40% e 60% – retirada de até 31 m³/s
- Faixa 3 (alerta): entre 30% e 40% – retirada de até 27 m³/s
- Faixa 4 (restrição): entre 20% e 30% – retirada de até 23 m³/s
- Faixa 5 (especial): abaixo de 20% – retirada de até 15,5 m³/s
Atualmente, o Cantareira está na faixa 4, de restrição. Isso significa que, além da redução da captação, o sistema só pode operar com reforço de águas bombeadas do Jaguari, respeitando o limite de 33 m³/s.
Importância estratégica
O Sistema Cantareira é formado por cinco reservatórios interligados (Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro), com capacidade total de 981,56 bilhões de litros. Ele foi projetado não apenas para atender a Região Metropolitana de São Paulo, mas também para garantir abastecimento nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ).
Desde 2018, conta com a interligação que permite a transferência de águas do Jaguari, no Vale do Paraíba, para o Atibainha, mecanismo que agora volta a ser utilizado. Essa solução, defendida como estratégica por técnicos do setor, evidencia, no entanto, a vulnerabilidade do sistema diante de períodos de chuvas abaixo da média.
Nesta semana, o Sistema Integrado Metropolitano (SIM), que reúne todos os mananciais da Grande São Paulo, operava com 32,3% da capacidade, o menor índice para setembro desde 2015, quando a capital viveu a crise hídrica mais grave da história recente.
Contexto regional e histórico
Apesar de todos os reservatórios do Cantareira estarem em território paulista, parte das águas que alimentam o sistema pertence a uma bacia de gestão federal — a do Rio Paraíba do Sul. Por isso, a ANA participa diretamente da definição de regras e limites de uso.
A lembrança da crise de 2014/2015 ainda está presente no Vale e na Grande São Paulo. Naquele período, a retirada de volumes além da média gerou tensão entre estados e municípios, com impacto direto no consumo e na atividade econômica. A criação das faixas de operação buscou justamente dar previsibilidade e evitar decisões emergenciais.
Hoje, a nova queda no Cantareira e a dependência crescente do Paraíba do Sul reacendem discussões sobre investimentos em diversificação de mananciais e em políticas de conservação da água.
Com a estiagem prolongada e a demanda crescente da Grande São Paulo, a dependência da capital em relação às águas do Vale tende a se intensificar. O Paraíba do Sul, que já é vital para cidades do interior paulista e para o Rio de Janeiro, volta a ser peça-chave no equilíbrio hídrico da maior metrópole do país.
Enquanto a Sabesp cumpre regras e amplia a transposição, resta ao Vale do Paraíba acompanhar com cautela: a cada vez que a Grande São Paulo precisa beber da nossa água, cresce a pressão sobre a segurança hídrica da própria região.









