A crise da 11ª Festa Literomusical de São José dos Campos (FLIM), que já havia provocado a saída de curadores, debandada de autores e adiamento do evento, ganhou nesta quarta-feira (17) um componente político nacional. O governo Lula, por meio do Ministério da Cultura (MinC), divulgou nota oficial repudiando a decisão do prefeito Anderson Farias (PSD) de vetar a participação da jornalista e escritora Milly Lacombe na mesa de abertura.
Segundo o MinC, o caso representa um “grave cerceamento à diversidade de pensamento” em um evento cultural financiado com recursos da Lei Rouanet. A pasta informou que solicitará explicações formais ao proponente da FLIM sobre os critérios objetivos que motivaram o cancelamento, já que a legislação veda avaliações baseadas em critérios subjetivos.
O que disse Milly Lacombe
O estopim da polêmica foi uma fala da jornalista em podcasts recentes. Em julho, no “Louva a Deusa”, Milly afirmou:
“Essa família tradicional, branca, conservadora, brasileira é um horror. É a base do fascismo, falemos a verdade, né?”
A frase foi amplamente divulgada em grupos conservadores e apontada por Anderson como razão do veto. O prefeito declarou que não poderia permitir que alguém com esse posicionamento falasse em evento “dentro de parque público, espaço público e com dinheiro público”.
Milly, no entanto, disse que o trecho foi descontextualizado. No programa “Reparação Histérica”, lançado nesta semana, ela afirmou que se referia à violência sofrida por mulheres e jovens LGBTQIA+ em lares conservadores.
“A família precisa acolher, não ser violenta com mulheres e jovens LGBTQIA+. Essa ideia de família hierárquica, cheia de relações de poder, é um núcleo que produz muitas neuroses.”
Após receber ameaças, a jornalista anunciou que não viria mais a São José:
“Em nome da minha vida, não posso ir. Corro riscos reais e imediatos.”
Debandada e adiamento
O veto resultou em 13 cancelamentos de autores — entre eles Xico Sá, Micheliny Verunschk e Helena Silvestre — e levou toda a curadoria do festival a renunciar, alegando desrespeito. A atriz Marisa Orth também se retirou. Com todas as mesas temáticas esvaziadas, a Afac (Associação para o Fomento da Arte e da Cultura) e a Prefeitura decidiram adiar o evento.
Anderson não recua
Apesar da pressão, o prefeito manteve sua posição.
“Não me arrependo de forma alguma. Se acontecer de novo, vou fazer de novo. Não vou permitir ataques à família brasileira em espaço público e com dinheiro público”, disse Anderson, em entrevista ao OVALE.
Ele negou censura e afirmou que seu governo “investe como nenhum outro em cultura, mas sem viés ideológico”.









