Opinião

Editorial: A imprensa apostou alto – e foi a alma que ela perdeu no caça-níqueis

Enquanto canais, sites e nomes de peso embolsam fortunas patrocinadas pelo vício alheio, o jornalismo de bairro segue catando migalha por migalha, tentando provar que notícia ainda serve para alguma coisa

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A imprensa apostou alto - e foi a alma que ela perdeu no caça-níqueis

Com a Copa do Mundo, as redes sociais começaram a se inundar de críticos da transmissão de um certo canal de Youtube (que você sabe qual é) como se ele e, apenas ele, fosse o grande vilão da história. Acontece que esse enredo não é de hoje e muito menos de um único canal.

Tem uma piada de mau gosto rodando o Brasil e quase ninguém está rindo dela porque ela dá lucro. A piada é a seguinte: a mesma imprensa que se acha guardiã da verdade, da cidadania, do interesse público, descobriu que existe um jeito muito mais rápido de pagar boleto. Chama-se bet. E o curioso é que ninguém te explica em qual editorial isso foi discutido antes de entrar no ar.

Não é hipocrisia, é estratégia de sobrevivência, dizem. Tudo bem. Mas vamos chamar pelo nome certo: é dinheiro de quem perdeu o salário pagando o aluguel de quem já tem dois apartamentos na orla. A imprensa brasileira, boa parte dela, virou vitrine de cassino com manchete de cidadania na fachada. E o pior nem é o anúncio em si — é a naturalidade com que ele foi engolido, sem debate, sem pudor, sem aquele desconforto mínimo que jornalista de verdade devia sentir quando o caixa fecha a conta usando o desespero do outro como matéria-prima.

Agora me leva pro outro lado da rua, o lado de quem não tem helicóptero, nem audiência de rede nacional, nem patrocínio de banco. O jornalismo regional — esse que cobre buraco, que cobre velório de político, que cobre fila de posto de saúde — esse jornalismo não tem a opção fácil. Ou melhor: até tem. A bet também deve pagar bem em cidade pequena. Só que tem gente que, por algum motivo meio antiquado, ainda acredita que o nome do veículo precisa significar alguma coisa daqui a dez anos.

Eu fundei o Diário de São José sem investidor, sem fundo, com um ou outro patrocínio institucional. E posso te garantir: recusar esse tipo de publicidade não é nenhuma virtude performática de quem está confortável. É escolher continuar pequeno por mais tempo pra, um dia ser grande sem dever explicação pra ninguém.

Porque o verdadeiro desafio do jornalismo brasileiro hoje não é a inteligência artificial, não é o algoritmo, não é nem a concorrência do influenciador de plantão. É sobreviver financeiramente sem se tornar funcionário do vício alheio. Quem resolveu esse problema raspando verba de apostas resolveu o problema errado, do jeito mais barato possível.

O Diário de São José quer crescer com comércio de bairro, com profissional liberal, com empresa que constrói junto e quer ver a cidade ir bem — não com plataforma que lucra quando o leitor perde. Vai ser mais devagar. Vai ser mais difícil. Mas, no fim do mês, ainda vou conseguir olhar pro espelho e pra São José dos Campos sem pedir desconto na consciência.

Foto de capa: Criada por Inteligência Artificial

Este editorial é um artigo de opinião de Dimas Vilas Boas e, não necessariamente, reflete a opinião do Diário de São José.

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Escrito por
Dimas Vilas Boas

Dimas Vilas Boas é jornalista e editor do Diário de São José. Atua na cobertura de temas ligados à cidade, com foco em jornalismo local, análise e contexto sobre os fatos que impactam o cotidiano de São José dos Campos e região.

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