Bastidores

Câmara inicia trabalhos da Frente Parlamentar de Proteção à Infância

Primeira reunião trouxe debate duro sobre exploração sexual, uso da internet, papel dos pais e falhas na rede de proteção. Dados oficiais mostram 389 casos de abuso sexual de menores registrados no município só em 2025

Primeira reunião trouxe debate duro sobre exploração sexual, uso da internet, papel dos pais e falhas na rede de proteção. Dados oficiais mostram 389 casos de abuso sexual de menores registrados no município só em 2025

A Câmara Municipal de São José dos Campos sediou na tarde da terça-feira (19) a primeira reunião da Frente Parlamentar de Combate à Pedofilia, Erotização Infantil e Violência Doméstica. O grupo foi proposto em fevereiro pelo vereador Senna (PL) e, na estreia, reuniu também os vereadores Amélia Naomi (PT), Carlos Abranches (Cidadania) e Lino Bispo (PL).

A pauta, por si só, já coloca a frente em posição de destaque entre os colegiados do Legislativo: enfrentar de forma articulada temas como pedofilia, exploração sexual, adultização de crianças e violência doméstica. Um campo em que raramente há consenso fácil, pois envolve cultura, religião, educação, rede de proteção e aparato judicial.

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Leis, punições e internet como terreno fértil

Entre as vozes convidadas, a advogada Suraia Strafacci, presidente da Comissão Infantojuvenil da OAB de São José, trouxe peso jurídico ao debate. Ela lembrou que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não deixa brechas: o artigo 240 prevê pena de 4 a 8 anos de prisão e multa para quem produzir, registrar ou reproduzir pornografia infantil, e o artigo 241 estabelece 3 a 6 anos de prisão e multa para quem oferecer, divulgar ou compartilhar esse tipo de material.

A advogada destacou ainda que não apenas produtores, mas também quem compartilha esse conteúdo em redes sociais e aplicativos pode responder criminalmente. Nesse ponto, alertou para o papel dos pais e responsáveis, que precisam impor limites ao uso da internet, especialmente porque crianças entre 10 e 12 anos estão entre as mais vulneráveis a abordagens online.

Realidade cruel em São José dos Campos

Os números apresentados pela conselheira tutelar Ana Paula Diniz Oliveira escancaram a gravidade do problema em âmbito local. Segundo ela, somente em 2025 já foram 389 casos de abuso sexual contra menores registrados na cidade. A conselheira detalhou a atuação do Conselho Tutelar diante das denúncias, com protocolos que envolvem o CREAS, o CAPS Infantil, a Vigilância em Saúde e a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).

Ana Paula fez ainda uma crítica estrutural: defendeu a descentralização do Conselho Tutelar, cobrando a implantação de uma unidade em São Francisco Xavier. Hoje, os casos do distrito são encaminhados a outras regiões, o que, segundo ela, fragiliza o atendimento. E foi além: apontou para os efeitos da violência sexual sobre a saúde mental das vítimas, que muitas vezes enfrentam traumas duradouros e reincidência da violência em ambientes domésticos.

Durante o encontro, Senna destacou que em julho apresentou e obteve aprovação em plenário de uma indicação à Prefeitura Municipal solicitando a ampliação do número de Conselhos Tutelares em São José dos Campos.

Segundo a Resolução nº 231/2022 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA), é recomendada a existência de um Conselho Tutelar para cada 100 mil habitantes. Considerando que a população estimada do município em 2024 é de 737.377 habitantes, o número ideal seria de sete Conselhos Tutelares, acima dos existentes atualmente.

“Essa é uma medida essencial para que o atendimento chegue a todas as regiões da cidade, inclusive a São Francisco Xavier, onde as ocorrências acabam sendo encaminhadas para outras áreas”, destacou Senna.

A reunião trouxe também sugestões de ação imediata. Entre elas, campanhas de conscientização em condomínios, com cartazes e mensagens em aplicativos de moradores, e encontros em igrejas e centros comunitários, de forma a espalhar informação sobre prevenção, denúncia e acolhimento. O Disque 100, canal nacional de denúncias que aciona Conselho Tutelar, polícia e Ministério Público, foi reforçado como ferramenta central.

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As participantes reforçaram conceitos-chave para que não se misture tudo no mesmo debate: abuso sexual, pedofilia, exploração sexual, adultização e trabalho infantil foram definidos, diferenciados e discutidos. A clareza conceitual, segundo elas, é essencial para que políticas públicas e ações de proteção não fiquem no campo das intenções genéricas.

Ofícios a autoridades nacionais

Outro encaminhamento importante da Frente foi a aprovação do envio de ofícios à Polícia Federal, Ministério Público, STF, Câmara dos Deputados e Senado Federal, solicitando celeridade na tramitação de proposições legislativas relacionadas ao combate à pedofilia, erotização infantil e violência doméstica resultante da adultização precoce.

Senna frisou que a proposta não busca controle das plataformas digitais:

“A solicitação não visa à regulamentação ou controle das redes sociais, preservando-se integralmente a liberdade de expressão. Nosso foco é a criação de mecanismos específicos e eficazes para proteger crianças e adolescentes contra crimes sexuais. Precisamos fortalecer a repressão criminal e os instrumentos de investigação”, afirmou.

Comissão de Educação também em campo

No mesmo dia, a Comissão de Educação e Promoção Social da Câmara também se reuniu. Sob presidência de Claudio Apolinário (PSD), foi aprovado um plano de trabalho para os próximos meses, relatado pela vereadora Juliana Fraga (PT) e acompanhado pelo vereador Fernando Petiti (PSDB).

Entre as medidas estão visitas a escolas da região leste, como a Emefi Profª Rosa Tomita, no Jardim São José II, e a realização de uma audiência pública em setembro para debater políticas públicas na educação especial. O encontro deve abrir espaço para ouvir mães e pais de crianças com deficiência ou transtornos, reconhecendo a luta cotidiana por inclusão escolar.

A comissão ainda pretende, em novembro, se reunir com representantes da Secretaria de Apoio Social ao Cidadão para avaliar a aplicação de recursos na assistência social. O resultado das ações será compilado em um relatório final até o fim do ano.

Ao final, as reuniões das Frentes Parlamentares deixaram evidente que os assuntos não serão conduzido apenas como mais um colegiado protocolar. Os números locais, a necessidade de descentralização do Conselho Tutelar e as propostas práticas colocam pressão sobre o Executivo e sobre a própria Câmara, que agora precisa mostrar se está disposta a transformar discurso em política pública efetiva.

O grupo nasce em um terreno onde há consenso quanto à gravidade do problema, mas há divergências sobre o papel do Estado, da família, da escola e da sociedade civil. A depender do andamento, a Frente Parlamentar pode se tornar palco de disputas ideológicas, mas também um instrumento de cobrança concreta. O que ficou claro já na primeira reunião é que São José dos Campos terá de lidar com dados incontornáveis: centenas de crianças vítimas de violência sexual todos os anos e uma rede de proteção que ainda está longe de dar conta da demanda.

Foto de capa: Flavio Pereira/CMSJC

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