Há espetáculos que você assiste. E há espetáculos que atravessam você. Ney Matogrosso – Homem com H, em cartaz no Teatro Porto até 29 de março às sextas e sábados às 20h e domingos às 17h, pertence claramente ao segundo grupo. Não é uma peça confortável. Não é uma biografia explicativa. Não é um tributo comportado. É um corpo em cena o tempo todo, dizendo, cantando, provocando e lembrando que arte, quando nasce de verdade, nunca pediu licença para existir.
A convite do Teatro Porto, fui ver o musical sem aquela expectativa infantil de quem vai “rever a história de Ney”. Fui com a curiosidade adulta de entender como o teatro daria conta de um artista que sempre escapou das formas, das categorias e das tentativas de enquadramento. E a resposta vem rápido: não se tenta domar Ney Matogrosso. O espetáculo escolhe acompanhá-lo.
A dramaturgia acerta ao abandonar qualquer obsessão cronológica. A narrativa começa num show do Secos & Molhados, em plena ditadura militar, e a partir daí costura infância, repressões, explosões criativas, afetos e rupturas. Não há linha do tempo linear porque Ney nunca foi linear. Há fluxo. Há choque. Há silêncio e excesso.
Essa escolha não é estética apenas. É política. Ao recusar a biografia didática, o musical se posiciona contra a domesticação da arte. O Ney que emerge no palco não é um personagem organizado para consumo rápido. É um artista que se construiu em conflito permanente com o mundo, com o corpo, com a moral da época e com o próprio palco.
Renan Mattos e o risco de vestir um mito
Interpretar Ney Matogrosso é um risco alto demais para quem não entende que semelhança não é imitação. Renan Mattos entende. E talvez por isso impressione tanto. O que ele entrega não é um Ney copiado, mas um Ney incorporado. O timbre vocal, os gestos, a postura corporal e, sobretudo, a forma como o corpo ocupa o espaço cênico constroem uma presença que não soa artificial em nenhum momento.
Existe algo de quase desconcertante em assistir a Renan em cena. Em alguns instantes, você esquece que não é Ney. Em outros, percebe claramente que é um ator pedindo licença a um legado gigantesco. Essa tensão, longe de ser um problema, é uma das forças do espetáculo. E não fica apenas em Mattos.
Ao longo do enredo, Cazuza surge no palco interpretado por Bruno Boer, e o impacto é imediato. Há reconhecimento, há memória coletiva ativada, mas não há caricatura. A voz carrega o peso certo, a presença tem insolência, fragilidade e intensidade na medida exata.
O encontro simbólico entre Ney e Cazuza, mesmo quando breve, diz muito sobre uma geração inteira de artistas que entendeu o corpo, a sexualidade e a arte como território de enfrentamento. O musical não romantiza esse embate. Ele mostra o custo.
O ensemble e a música como engrenagens vivas
Outro acerto evidente está na decisão de manter o ensemble em cena quase o tempo todo. Não há apagões emocionais. As trocas de figurino, maquiagem e personagens acontecem diante do público, como se o espetáculo dissesse, o tempo todo, que nada ali é fixo. Tudo é construção. Tudo é mutação.
Essa escolha conversa diretamente com a figura de Ney Matogrosso, artista que sempre fez da transformação um método e da ambiguidade uma linguagem. O palco vira organismo vivo. E funciona.
A direção musical de Daniel Rocha evita o erro comum de transformar canções em números isolados. Aqui, a música conversa com a cena, empurra a narrativa, tensiona o texto. As canções não aparecem para agradar fãs. Aparecem porque fazem sentido naquele ponto da história, mesmo quando a história se recusa a ser linear.
É nesse ponto que o musical ganha densidade. As letras dialogam com a vida do artista sem virar legenda emocional. O público entende, sente e segue.
O espetáculo trata de liberdade, mas não no sentido publicitário da palavra. Liberdade aqui é risco, exposição, perda, violência simbólica e, ainda assim, escolha. Ney enfrentou a ditadura não com discursos inflamados, mas com o corpo maquiado, nu, ambíguo, impossível de ser silenciado. O musical entende isso e não tenta suavizar.
Vale ir. Vale planejar. Vale atravessar a Dutra
Há um detalhe que não é pequeno, especialmente para quem sai da nossa São José dos Campos. O Teatro Porto entrega estrutura, conforto, acústica precisa e, sobretudo, localização que hoje permite circular com mais tranquilidade. A região dos Campos Elíseos, em meio à revitalização, oferece uma experiência urbana mais segura e funcional do que a memória antiga do centro paulistano costumava sugerir.
Chegar, estacionar, assistir ao espetáculo e voltar para casa sem sensação de caos muda completamente a relação com São Paulo. A cidade, quando resolve funcionar, convida.
A temporada segue até o fim de março. Há sessões às sextas, sábados e domingos, diferentes faixas de preço e a possibilidade real de transformar uma noite comum em experiência cultural de alto nível. Não é programa para “qualquer dia”. É programa para o dia certo.
Ney Matogrosso – Homem com H não é apenas um musical bem produzido. É um espetáculo que respeita a inteligência do público, a complexidade do artista e a memória cultural do país. A uma hora de São José dos Campos, existe arte desse tamanho. E isso importa.
“NEY MATOGROSSO – HOMEM COM H“
Temporada: De 30 de janeiro a 29 de março de 2026.
Sessões: Sextas e sábados às 20h e domingos às 17h.
Duração do espetáculo: 3 h (com 15 minutos de intervalo)
Obs. Não haverá sessões no Carnaval.
Ingressos:
LOTE 1
Preço Popular: R$50 (plateia/balcão/frisas)
LOTE 2
Plateia: R$ 175
Balcão e frisa: R$ 140
LOTE 3
Plateia: R$ 200
Balcão e frisa: R$ 160
LOTE 4
Plateia: R$ 250
Balcão e frisa: R$ 200
Obs. O ingresso PREÇO POPULAR é válido para todos os clientes e segue o plano de democratização da Lei Rouanet e está sujeito à cota estabelecida por Lei para este valor. O comprovante para compras ao valor de meia entrada é obrigatório e deverá ser apresentado na entrada do espetáculo.
TEATRO PORTO
Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.
Telefone (11) 3366.8700
Bilheteria aberta somente nos dias de espetáculo, duas horas antes da atração.
Clientes Porto Bank mais acompanhante têm 50% de desconto.
Clientes Porto mais acompanhante têm 30% de desconto.
Capacidade: 484 lugares.
Formas de pagamento: Cartão de crédito e débito (Visa, Mastercard, Elo e Diners).
Acessibilidade: 10 lugares para cadeirantes e 5 cadeiras para obesos.
Estacionamento no local: Gratuito para clientes do Teatro Porto.
Foto de capa: Divulgação/Teatro Porto
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A Uma Hora de Tudo não é agenda cultural, nem publi disfarçado, nem roteiro turístico pasteurizado. É experiência vivida, observada e analisada em primeira pessoa, com o filtro editorial do DSJ: curiosidade, senso crítico e respeito ao leitor adulto. Aqui, a pergunta nunca é “vale a foto”, mas “vale o tempo”.





