Um dos maiores levantamentos sobre saúde mental e aprendizagem entre jovens brasileiros revela um quadro preocupante. De acordo com a Avaliação do Futuro, estudo conduzido em 2024 com o apoio do Instituto Ayrton Senna, em parceria com o Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), oito em cada dez estudantes do Ensino Médio da rede pública relatam sintomas de ansiedade e depressão.
O levantamento ouviu cerca de 89 mil alunos em cinco estados brasileiros — Ceará, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Pará — e buscou compreender como as competências socioemocionais se relacionam com a aprendizagem e o bem-estar emocional. A análise mostra que habilidades como autogestão, engajamento com os outros e resiliência estão diretamente ligadas ao desempenho acadêmico e à convivência escolar.
Segundo o estudo, estudantes com maiores níveis de autogestão — a capacidade de planejar, persistir e lidar com desafios — obtiveram notas mais altas em disciplinas como Língua Portuguesa e Matemática, além de apresentarem vínculos mais sólidos com colegas e professores.
Mas é o quadro emocional que chama a atenção. Oito em cada dez jovens afirmaram sentir um ou mais sintomas de ansiedade e depressão em níveis elevados, revelando um cenário de desgaste emocional que atravessa as salas de aula brasileiras.
Entre os dados mais preocupantes, 38,9% relataram sentir-se esgotados ou sob pressão, 33,9% disseram perder o sono por causa de preocupações, 20,4% afirmaram estar infelizes ou deprimidos, 22,1% perderam a confiança em si mesmos e 22% declararam sentir-se incapazes de superar as próprias dificuldades. A dificuldade de concentração foi mencionada por 7,9% dos alunos.
As diferenças entre meninos e meninas também chamam atenção: 25,2% das alunas relataram perda total ou acentuada da autoconfiança, contra 17,8% dos alunos.
Para Ana Crispim, gerente de pesquisa no eduLab21, laboratório de ciências para a educação do Instituto Ayrton Senna, e doutora em Psicologia pela University of Kent (Reino Unido), os números refletem um desgaste emocional que precisa ser tratado com urgência.
“A saúde mental é multifatorial — envolve relações consigo mesmo, com os outros e com o contexto em que se vive. Entre os adolescentes, essas pressões podem ter origens diversas: desafios próprios da faixa etária, vulnerabilidades contextuais, desigualdades sociais, preocupações sobre o futuro (como a proximidade do vestibular), a convivência na escola, as expectativas familiares ou sociais e as comparações nas redes sociais. Tudo isso impacta a motivação e a confiança dos estudantes em suas próprias capacidades”, afirma.
Crispim destaca que a escola ocupa um papel central nesse processo, tanto na identificação dos fatores de risco quanto na promoção de estratégias de proteção.
“Além de identificar fatores de risco associados a prejuízos na saúde mental, as escolas precisam mirar em fatores protetivos como fortalecer espaços seguros, onde vínculos sólidos entre alunos e educadores favorecem a escuta, o acolhimento e o encaminhamento adequado. Programas estruturados de desenvolvimento socioemocional podem ser aliados nessa missão, ao estimular autoconfiança, engajamento, a construção de uma rede de apoio e estratégias de regulação emocional.”
Os dados mostram que a saúde emocional tem impacto direto sobre o desempenho escolar e sobre o sentimento de pertencimento dos estudantes. Para muitos, a sobrecarga mental e o esgotamento se traduzem em queda de rendimento, absenteísmo e desinteresse, reforçando um ciclo de vulnerabilidade que pode levar à evasão.
A pesquisa também mostra que as meninas apresentam níveis mais elevados de vulnerabilidade emocional, tendência que acompanha estudos nacionais e internacionais sobre adolescência.
“Sentimentos como tristeza, raiva e ansiedade tendem a ser mais complexos e difíceis para que o adolescente os administre, algo que parece ser ainda mais acentuado entre meninas. A adolescência é um período desafiador: fatores como a insatisfação com o corpo, somada à força dos padrões de beleza e das comparações e expectativas sociais, pesam no dia a dia. Por isso, o desenvolvimento de recursos e estratégias para melhor regular suas emoções e a contar com a compreensão e apoio dos adultos, fazem muita diferença nessa jornada”, complementa Crispim.
Para Gisele Alves, gerente executiva do eduLab21, os dados reforçam a necessidade de uma resposta integrada entre educação, saúde e políticas sociais.
“Não há bala de prata. É preciso adotar múltiplas estratégias — pedagógicas, psicológicas e sociais — para construir respostas efetivas à crise de saúde mental entre os jovens. E isso passa por políticas intersetoriais que unam educação, saúde e assistência social”, afirma.
Ela destaca também o papel do professor como figura-chave nesse processo.
“Promover saúde mental na escola significa criar um ambiente onde aprender e se sentir bem caminham juntos. E isso vale para os estudantes e para os docentes, que enfrentam seus próprios desafios emocionais e precisam ter apoio nessa relação cotidiana com os alunos.”
A Avaliação do Futuro integra um esforço contínuo do Instituto Ayrton Senna em promover diagnósticos baseados em evidências. O estudo se soma a mais de uma década de pesquisas conduzidas pelo eduLab21, que consolidam a importância das competências socioemocionais como eixo essencial para uma educação de qualidade, equitativa e humanizada.
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