O debate sobre o atendimento a crianças com transtorno do espectro autista (TEA) ao final da sessão da Câmara Municipal de São José dos Campos de hoje fez jus ao nome do momento de fala dos parlamentares: “pingou fogo”. A galeria composta por mães e pais atípicos assistiu ao embate entre os vereadores Marcão da Academia (PSD) e Senna (PL), que trocaram farpas em torno do GAIA, entidade conveniada que hoje atende apenas 150 das 500 crianças previstas em contrato.
“Massa de manobra”
Marcão, ao elogiar o trabalho do colega Fernando Petiti (PSDB), sugeriu que parte da mobilização estaria sendo usada de forma política:
“Se quiserem informação real, vamos até a secretaria, sentamos com o prefeito e vemos a situação de perto. Não dá para virar massa de manobra. Se for para resolver, vamos juntos”, declarou.
A fala acendeu o estopim. Senna reagiu de imediato, classificando a postura como desrespeitosa às famílias presentes.
“Jamais vou tratar mães e pais atípicos como massa de manobra. Esse tipo de prática é sujo e desonesto. Nosso papel é unir forças para resolver problemas antigos e dar dignidade às famílias”, rebateu.
Cobrança por centro especializado
Senna reforçou que São José dos Campos precisa de um centro de especialização — que ele chama de Casa do Autista. Segundo dados citados pelo parlamentar, a cidade teria cerca de 22 mil crianças diagnosticadas, mas apenas uma pequena parcela consegue atendimento.
“A descentralização prejudica. Muitas famílias não têm condições de arcar com transporte. Não é justo que só 150 sejam atendidas no GAIA”, afirmou.
O vereador também defendeu que a Frente Parlamentar do Autismo, hoje com 17 vereadores, deve atuar de forma conjunta:
“Não caímos em narrativas de separatismo. É hora de pressão unida para garantir o centro especializado”, disse.
Panos quentes
Diante da tensão, o presidente da Câmara, Roberto do Eleven (PSD), tentou esfriar o clima ao ler uma nota da Prefeitura que negava o desligamento de crianças do GAIA.
“A Prefeitura esclarece que não houve desligamento de nenhuma criança assistida. Todas as famílias foram comunicadas. Se vocês não foram comunicados, vão comunicar vocês”, afirmou o presidente.
O gesto, porém, não convenceu. No plenário, mães reagiram com desconfiança, temendo cortes no futuro, e a tentativa de “pano quente” acabou apenas ampliando o mal-estar.
A sessão terminou sob clima pesado, com vereadores divididos entre a defesa da gestão municipal e a cobrança por soluções imediatas. As famílias, que compareceram à galeria, deixaram o recado: querem respostas concretas, não discursos.
Foto de capa: Divulgação/CMSJC









