A 11ª edição da Festa Litero Musical (Flim), marcada para começar nesta sexta-feira (19) no Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos, enfrenta uma crise antes mesmo de abrir as portas. O cancelamento da participação da jornalista e escritora Milly Lacombe, determinado pelo prefeito Anderson Farias (PSD) após repercussão de declarações da autora sobre o conceito de família tradicional, levou à saída do escritor Xico Sá, mais convidados das mesas literárias e de toda a equipe de curadoria do evento.
Cancelamento e repercussão
Milly Lacombe participaria da mesa de abertura da Flim ao lado do jornalista Xico Sá e do poeta Cuti. O convite havia sido feito pela Associação para o Fomento da Arte e da Cultura (AFAC), gestora do Parque Vicentina Aranha. No entanto, declarações dadas por Lacombe em julho, durante entrevista ao podcast Louva a Deusa, viralizaram nas redes sociais e provocaram reação de grupos políticos e religiosos.
No trecho que circulou, Milly disse: “Esse negócio de família tá f*** a gente. Família é um núcleo produtor de neurose. Essa família tradicional, branca, conservadora, brasileira. Gente, isso é um horror. É a base do fascismo. Falemos a verdade”. A jornalista afirma que a fala foi tirada de contexto e que se referia à exclusão vivida por crianças e jovens LGBTQIAP+.
Após pressão política, o prefeito Anderson Farias divulgou vídeo confirmando que solicitou o cancelamento. “Não podemos permitir, nem admitir dentro do espaço público pessoas que tenham esse pensamento com relação à família. Cultura deve unir, não dividir”, afirmou.
A reação de Milly
Em vídeo publicado nas redes sociais na noite de terça-feira (16), Lacombe declarou ter recebido ameaças e avaliou que sua presença na feira representaria risco à própria segurança. “Não poder participar de uma feira literária é uma derrota para todos que lutam por um mundo da livre expressão”, disse.
A jornalista relatou frustração pelo cancelamento: “Eu ia fazer uma mesa muito rica, com o Cuti e o Xico Sá, dois escritores sensacionais. Mas um trecho manipulado da minha fala foi usado para alimentar a fúria e o ódio da extrema-direita. A minha participação passou a ser um risco”.
A saída da curadoria e de Xico Sá
O escritor Xico Sá anunciou sua retirada em solidariedade à colega. “Deixo aqui todo apoio e solidariedade à jornalista Milly Lacombe, censurada e silenciada politicamente pela Prefeitura de São José dos Campos. Em protesto, comunico o cancelamento da minha participação”, afirmou.
As curadoras Bianca Mantovani, Alice Penna e Costa, Tania Rivitti e a assistente Bruna Fernanda também comunicaram a saída coletiva. Em nota, classificaram o episódio como censura: “Após um ano de dedicação, fomos surpreendidas com a exclusão de uma convidada para a mesa de abertura. Justamente em uma edição em que propusemos discutir alteridade e convivência, uma decisão arbitrária inviabiliza a continuidade do nosso trabalho”.
AFAC e Prefeitura
A AFAC, responsável pela gestão do Vicentina Aranha e organização da Flim, confirmou o cancelamento e alegou que a decisão foi tomada “em comum acordo com a convidada, objetivando preservar a integridade de todos os envolvidos”. A entidade afirmou ainda que não compactua com manifestações “que não estejam ligadas à atividade fim do evento, que é a promoção da cultura, da música e da literatura”.
A Prefeitura, por sua vez, reforçou em nota que não comentaria além das declarações do prefeito.
Mesmo sem curadoria e sem parte dos convidados da abertura, a AFAC afirma que a Flim será mantida. O evento, criado há 11 anos e consolidado como um dos principais do interior paulista, reúne atividades literárias, musicais e de debate.
A crise, no entanto, expõe um racha entre organizadores, escritores e o poder público municipal, e coloca em dúvida o formato e o alcance da edição 2025 da festa.
Foto de capa: Divulgação









