A 48ª sessão ordinária da Câmara Municipal de São José dos Campos, nesta terça-feira (9), teve um roteiro dividido entre a formalidade burocrática e a carga simbólica das homenagens. No campo prático, os parlamentares aprovaram 57 requerimentos e duas atas sem debates em plenário, numa votação protocolar que já é característica quando o tema não gera polêmica imediata. Mas, para além da pauta oficial, o que marcou a sessão foram as manifestações de pesar e solidariedade.
A Câmara prestou homenagem à escritora joseense Letícia Giulia, que faleceu nesta terça-feira, deixando sua marca na literatura regional. Reconhecida por sua dedicação às letras, Letícia foi lembrada por parlamentares como referência cultural e voz que ajudou a dar visibilidade à produção literária local. Letícia é filha do ex-vereador Alexandre da Farmácia.
Outro momento carregado de emoção foi a homenagem ao jovem Carlos Eduardo, de 23 anos, brutalmente assassinado no fim de semana. O plenário se uniu em mensagens de apoio à família e repúdio à violência que ceifou a vida do rapaz. O caso ainda está sob investigação da polícia. Os dois criminosos envolvidos no assassinato foram presos pela Polícia Civil da cidade.
Também foram apresentadas moções de louvor a líderes religiosos da cidade, em reconhecimento ao trabalho pastoral desenvolvido em diferentes comunidades — gesto tradicional da Câmara.
Requerimentos sem debate
Apesar da quantidade expressiva — 57 requerimentos aprovados —, não houve discussões sobre os documentos. Entre eles, estavam pedidos de informações à Prefeitura sobre programas de combate ao bullying na rede municipal de ensino, medidas tomadas após agressões em escolas, custos da visitação no Parque Augusto Ruschi, afastamentos médicos de servidores e até a adequação às novas regras da reforma tributária nacional (Emenda Constitucional 132/23), que cria o IBS, CBS, Imposto Seletivo e a Nota Fiscal Nacional.
Dos 249 documentos lidos em plenário, a maior parte — 168 — foram indicações de serviços: de fiscalização de tabacarias e perturbação do sossego em bairros periféricos a melhorias em ciclovias, iluminação, academias ao ar livre, campos de futebol, controle de escorpiões e manutenção de unidades de saúde.
Tribuna em tom de alerta
Os assuntos mais quentes surgiram apenas na tribuna. Oradores falaram sobre o Setembro Amarelo, campanha nacional de prevenção ao suicídio, denunciaram a demora no atendimento psiquiátrico na rede pública, a falta de linhas de ônibus para o Hospital Francisca Júlia e o aumento dos casos de estupro na cidade — 118 registros entre janeiro e julho, o maior número em 24 anos da série histórica. Houve ainda comentários sobre o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, em pauta no Supremo Tribunal Federal.
Quinta-feira de expectativa
A próxima sessão está marcada para a quinta-feira (11), com previsão de votação de projetos. Até o fechamento desta edição, não havia confirmação de que o projeto de revisão do IPTU seria pautado.
A matéria, enviada pelo Executivo, revisa a Planta Genérica de Valores (PGV) e atualiza a base de cálculo do IPTU a partir de 2026. O projeto, já tratado como “pacotão do IPTU”, tem dividido a Câmara e provocado manifestações de movimentos sociais e entidades da cidade.
Bastidores do “pós-votação”
Nos corredores, porém, o clima já é de pós-votação. Assessores de vereadores da base governista disseram ao Diário de São José que a aprovação do projeto é tida como certa — a base do prefeito Anderson Farias (PSD) costuma cravar votações pelo placar de 13 a 7. O problema, dizem, será administrar o desgaste político.
“Vai ficar a pecha de que quem votou a favor virou inimigo do povo. Isso é natural em matéria impopular como aumento de imposto”, disse um assessor.
Para tentar neutralizar a crítica, parlamentares da base já articulam um discurso de contrapartida social: se o IPTU vai subir, também é preciso subir a régua da qualidade dos serviços públicos. A estratégia passa por ampliar a negociação com o Executivo, garantindo que solicitações de vereadores sejam atendidas pela Prefeitura — não como moeda de troca, frisam, mas como resposta direta à população.
A expectativa é que o tema domine a pauta política da cidade nos próximos dias, com a base tentando justificar a necessidade da revisão e a oposição explorando o desgaste do governo. Até lá, o fantasma do IPTU continua rondando o plenário.









